De Viagens e Religiões
Enviado em 28 de Maio de 2010
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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Religião é meio, não fim.
- Claudio Quintino Crow
Um grupo de indivíduos em Nova York deseja vir ao Brasil; eles dispõem de diversas formas para fazê-lo: podem optar por vir de avião, navio, de carro, ônibus, moto, bicicleta, cavalo ou mesmo a pé. Mesmo dentro de uma dessas opções, o itinerário a seguir também pode variar: com ou sem escalas, por esta ou aquela estrada, esta ou aquela companhia, nesta ou naquela velocidade… Existem várias formas de se viajar de Nova York ao Brasil. O que conta, no fim das contas, é chegar ao destino – e o mesmo ocorre com as religiões.

Tome como exemplo quaisquer duas religiões: ainda que haja uma miríade de divergências fundamentais entre uma e outra – por exemplo, uma pode ser monoteísta e a outra politeísta; uma pode crer na continuidade da vida pós-morte enquanto a outra não, e assim por diante – ainda que essas diferenças sejam latentes e impossíveis de ignorar, há ao menos um elemento comum a todas as religiões: o fato de que todas elas se dispõem a explicar os mistérios e questões mais profundas da vida e a oferecer conceitos e valores que formem uma estrutura filosófica sobre a qual o seguidor vive sua vida.
Essa é a verdadeira finalidade das religiões – todas elas.
Em sua essência, toda religião é válida – desde que entendida no contexto sócio-cultural em que está inserida. Nenhuma religião ou manifestação espiritual pode ser avaliada sem que se leve em conta a sociedade na qual se desenvolve, os princípios e valores do povo que a pratica, as circunstâncias históricas que moldam seu desenvolvimento.
Práticas que aos nossos olhos soam bizarras, crenças que para nosso juízo parecem incoerentes só sobrevivem em seu ‘hábitat’ natural – o universo sócio-cultural e histórico-geográfico onde se desenvolvem. Evidentemente, a questão fica mais delicada quando uma dada religião é ‘transplantada’ para outro contexto sócio-cultural, outra paisagem histórico-geográfica.
O que se segue, geralmente, é um período de adaptação que traz mudanças em suas práticas e princípios - mudanças que são, literalmente, irresistíveis. É o mecanismo natural de sobrevivência e evolução das religiões - querendo seus seguidores ou não.

É por isso que, para se compreender a fundo uma dada religião – qualquer que seja ela - é preciso compreender, antes de mais nada, sua evolução e história. E quando nos dispomos a isso, nos é dado compreender um fato importante:
Toda religião é válida – até mesmo aquelas que se mostram diametralmente opostas à nossa (seja ela qual for).
Ora, se toda religião é válida, nenhuma pode ser relegada a um segundo plano, nenhuma pode ser rotulada como negativa, nenhuma pode ser atacada – ou assim deveria ser. Nenhuma religião detém o “monopólio da verdade”, nenhuma deveria se entitular o “verdadeiro e único caminho” – porque todas são caminhos: todas as religiões são meio, e não fim.

Evidentemente, existem pontos que podem ser vistos como negativos nesta ou naquela religião – valores socialmente anacrônicos, postura dominante elitista, descompasso com a realidade corrente. Da mesma forma, toda – toda - religião possui seus desvios de conduta: indivíduos que, mais por seu próprio desequilíbrio do que pelos princípios da fé que abraça, agem de forma criminosa: padres pedófilos, pastores estelionatários, auto-entitulados ‘bruxos’ sádicos…
Da mesma forma que nenhuma religião detém o monopólio da virtude, nenhuma é composta só de depravados.
Ao contrário: os depravados das mais diversas categorias é que costumam se abrigar no seio desta ou daquela instituição, muitas vezes valendo-se da cobertura dessa instituição para dar vazão a seus instintos criminosos.
E não é só no universo religioso que esses depravados se instalam: torcidas organizadas, partidos políticos, ONGs… qualquer organização pode – e costuma - atrair esses desequilibrados de plantão às suas fileiras.
Assim, rotular este ou aquele grupo – religioso, político, cultural – como “bom” ou “ruim” é precipitado, injusto e, acima de tudo, imaturo, engendrando sentimentos de conflito entre grupos diferentes, intolerância e fanatismo.
Fanatismo e ignorância andam de mãos dadas
Poucos universos são mais férteis para o desenvolvimento do fanatismo do que o religioso. No mais das vezes, o sectarismo e a intolerância surgem naqueles indivíduos que menos compreendem sua própria religião: diante do diferente, sentem-se ameaçados. E ao sentirem-se ameaçados, atacam com a veemência e a fúria da besta acuada.
Sempre que me deparo com um discurso fanático, identifico com facilidade em sua origem a ignorância – no sentido literal da palavra: ato de ignorar, desconhecer. Nas palavras do irlandês William Butler Yeats, “toda alma vazia tende a opiniões extremas”.
O mais triste é que, cedo ou tarde, essas ‘almas vazias’, tão propensas a opiniões extremas e radicais - tão incapazes de enxergar a si mesmas, e que dizer das almas à sua volta – cedo ou tarde elas acabam por contaminar até mesmo o seio do grupo ao qual dizem pertencer e que, ao defender com tanto ardor, só fazem gerar mais distanciamento, mais isolamento, mais intolerância e incompreensão.
Se o fanático percebesse que sua religião não é ameaçada pela existência de outras religiões, ele não se agarraria aos seus dogmas, crenças e visões com tanta força, não atacaria o diferente. Mas se o fanático percebesse isso, não seria fanático… e fato é que o mundo está cheio de fanáticos.
Curiosamente, o fanático demonstra sua mais visceral intolerância com aqueles que caminham ao seu lado - e que, justamente por compartilharem da mesma crença, à menor divergência de percepção são vistos como ameaças a uma suposta “integridade” da sua religião. Como vimos acima, a evolução e a adaptação são marcas naturais de todas – todas – as religiões. Assim, religião nenhuma possui “integridade” ou “pureza” - salvo na cabeça do fanático, que preza essa falsa “pureza” porque ela é, na verdade, seu escudo, a máscara com que ele oculta a sua ignorância.
Religião e espiritualidade
Por conta dessa intolerância e dos desvios de conduta de alguns indivíduos que crêem falar e agir em nome de sua fé, muitas pessoas desenvolveram repulsa pela palavra ‘religião’, pois para muitos ela pressupõe dogmas, estruturas rígidas e hierarquia. Eis porque, como já dito, ‘nem todos possuem uma religião, mas todos possuem uma espiritualidade’. Grosso modo, espiritualidade é a manifestação pessoal das crenças e princípios de um indivíduo, e idealmente, mas não necessariamente, se alinham com perfeição com alguma corrente religiosa. Eis porque costumo usar as palavras ‘espiritualidade’ e ‘religião’ como sinônimos, diluindo o peso negativo atrelado à palavra ‘religião’ e enaltecendo a força da espiritualidade individual - em última análise, fortalecendo a fusão de ambas.
Disputa e Destino
As disputas entre seguidores de diferentes religiões tendem a ser tão violentas quanto as discussões entre torcedores de times rivais. Porque ambos os lados se esquecem que, sem outros times com quem jogar, o seu time do coração simplesmente não tem razão para existir. Eis o que o fanático faz: cego diante da condição primordial da existência de sua fé, desconfia, despreza e desacata todas as outras que, a seus olhos adoentados, se lhe opõem.
Já as disputas internas entre ‘facções’ de uma mesma religião são ainda mais doentias: é como, estando reunidos no Rio de Janeiro, um grupo de pessoas discutisse intolerantemente acerca de suas escolhas pessoais de transporte: os que vieram de avião louvam a rapidez da viagem, os que vieram de carro enaltecem a liberdade em determinar ritmo e itinerário, os que vieram a pé defendem o exercício físico, os de navio o conforto - e todos têm razão. Mas cegos pela razão, simplesmente se esquecem que todos, no fundo, estão juntos, no destino estabelecido.
Quem de fato compreende a fundo sua religião abre a porta do diálogo com todas as demais. Quem não a compreende vê todos os outros como inimigos.
Que sua viagem seja tão rápida, confortável, saudável e livre quanto você desejar.

Simplesmente, Bravíssimo!!!!
Cláudio, fantástico seu texto. Me identifiquei pois já fui vítima de ataque de pessoas que em tese seriam minhas companheiras de crença. E isso, pura e simplesmente, pela questão do fanatismo e monopólio de uma dita verdade que não deve estar nas mãos de ninguém…pois não acredito que qlqr um de nós possua verdades…possuímos pontos de vista, experiências vividas e podem (ou não) agregar a quaisquer outros com quem possamos compartilhar isso.
Perfeito, Andreia…
Como diz Joseph Campbell:
“Se você é capaz de enxergar o seu caminho claramente estendido diante de você, passo a passo, então você sabe que esse NÃO é o seu caminho: pois o seu caminho é VOCÊ quem faz, a cada passo que dá. Por isso é que é o SEU caminho.”
Isso é um fato inquestionável; mas infelizmente, seja numa dada religião, num grupo ideológico, movimento ou mesmo numa relação afetiva, a maioria dos problemas interpessoais deriva da imposição - consciente ou não - da percepção pessoal de uma das partes como sendo “a alternativa” e não “uma alternativa”.
Ainda há muito a trilhar - afinal, o caminho segue sempre, a despeito disso tudo, e a despeito de nós mesmos!
Concordo 100% Crow… não à toa todos temos de preservar os ventos de liberdade no interior para que sejam soprados externamente qdo se faz preciso.
Já se diz que viver dói… viver e ser franco, querendo sempre todas as cartas à mesa e todo mundo podendo expor o que crê, realmente pode vir a machucar mais ainda… já dizia Anais Nïn:
” Não deveríamos oferecer à coletividade um “eu” incompleto, deprimido, caótico, confuso, doente ou ferido”.
E ela tem razão…não devíamos mas talvez não tenhamos escolha…
Será que temos?
Às vezes creio que sim, outras creio que não… não tenho um ponto de vista formado sobre…enqto isso, como vc mesmo disse, o caminho segue a despeito disso tudo.
Estamos sempre incompletos porque somos ilimitados… nunca nos revelamos por inteiro porque nunca nos conhecemos por inteiro - nem mesmo aqueles que corajosamente se dispõem a se conhecer podem afirmar conhecer-se por inteiro. E isso principalmente porque mudamos constantemente. A mudança é nossa essência, apesar de lutarmos contra ela.
Mais uma vez, Yeats: “Happiness is neither virtue nor pleasure nor this thing nor that but simply growth, we are happy when we are growing.” (’A felicidade não é uma virtude ou um prazer, nem é isto ou aquilo: a felicidade é, simplesmente, crescimento. Estamos felizes quando crescemos’).
Incompleto, sempre; caótico e confuso, muitas vezes; deprimido, doente e ferido, só o quanto desejamos e permitimos…
Crow,
Realmente, acredito que espiritualidade está acima da religião. Cresci acompanhando minha vó às missas de domingos e feriados santos. Porém aquela devoção não era para si mesma, ela buscava na igreja o pecado do outro, quando não enxergava a trave (e até mesmo o campo inteiro) no olho dela. Foi observando que as palavras de amor, eram somente uma ladainha da boca pra fora (ao menos do meu ponto de vista, naquele momento). Quando a verdadeira prática do amor ao próximo, do respeito ao diferente eram atitudes bem distantes da realidade cotidiana de minha católica avó. Após discordar da existência do inferno, fui mesmo compelida a sair da igreja e encontrei na Bruxaria a crença que eu buscava, pois a religião que me atenderia, teria que aceitar-me como sou, e se focasse apenas na ação e reação dos meus próprios atos. Quando se busca uma religião ou se abre as percepções da espiritualidade, é como você descreveu acima, parafraseando Joseph Campbell, se abre o próprio caminho para seguí-lo, sem prejudicar a ninguém nem a si mesmo.
Obrigada pela ótima leitura.
“a evolução e a adaptação são marcas naturais de todas – todas – as religiões. Assim, religião nenhuma possui “integridade” ou “pureza” - salvo na cabeça do fanático, que preza essa falsa “pureza” porque ela é, na verdade, seu escudo, a máscara com que ele oculta a sua ignorância.”
PERFEITO!
E isso se adapta pra tantas coisas… o que mais me vêem a cabeça são esses ganguismos neonazistas sem fundamento que parecem crescer com o passar do tempo.
Felizmente, ainda tem gente maravilhosa, que faz valer a vida. :}
Sou tua fã!
Pois é…vida é movimento…não há escolha nem outra possibilidade…como diz a frase do Blake “Quem nunca altera a sua opinião é como a água parada e começa a criar répteis no espírito” e aqui cabe aplicação em muitos outros aspectos.
Obrigada pelo texto!
Como sempre, o ponto sempre acaba sendo o Respeito…a partir dele, todo o restante é passível e possível: seja a tolerência com algo que nos seja desconhecido ou não encontre eco em nós…havendo o Respeito, uma infinidade de possibilidades se abre…e tanto pode ser inclusive aprendido…quem disse que só aprendemos com aquilo que praticamos, aceitamos e gostamos não é? Aprende-se com tudo e o tempo todo. Basta haver a necessidade, a ocasião e a inexistência de travas pra isso. Gostei do “Estamos sempre incompletos porque somos ilimitados”… muito bonito esse teu ponto de vista, ainda não havia pensado por esse prisma.