O Druidismo e as relações com o Sagrado: múltiplos caminhos, um só objetivo. (Pte. 2)
Enviado em 7 de Abril de 2010
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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Na primeira parte deste ensaio, apresentamos uma concepção do Sagrado a partir das fontes mitológicas e históricas dos celtas da Irlanda. A partir dessa concepção, desenvolvemos algumas visões da relação celta com o sagrado, a saber:
a) o Sagrado não se encontra num “plano superior” ou num paraíso remoto, mas na própria paisagem que nos rodeia;
b) por essa proximidade, dentro do druidismo a experiência do sagrado mostra-se acessível a quem quer que seja, onde quer que seja, quando quer que seja;
c) Em determinados momentos especiais (celebrações e rituais), nos quais a experiência do sagrado não é somente individual mas envolve toda a comunidade, o contato com o sagrado é facilitado por indivíduos que desempenham a função sacerdotal – o druida e/ou o rei;
d) A partir dessas observações, percebemos que o desempenho da função sacerdotal está intimamente ligado à existência de uma comunidade, da qual o sacerdote - no caso, o druida e/ou o rei - é o digno representante espiritual, designado por sua sensibilidade, seu treinamento e sua capacidade.
Como conclusão, alertamos para o risco de se ver no sacerdócio a única forma de contato com o Sagrado: não é. Mas qual é o risco? É o de se limitar a experiência do sagrado à prática e celebração de rituais em detrimento de muitas outras formas – as quais serão abordadas abaixo.

Culto aos Deuses
Outro termo muito usado no universo neo-pagão e no druidismo moderno é o de se “cultuar” este ou aquele deus, este ou aquele ‘panteão’ (entre aspas, porque o termo não se aplica às deidades celtas).
Por distorção do sentido original, muitas pessoas associam o termo ‘culto’ a uma ritualística carregada, confundindo culto com rito. Strictu sensu, para o dicionário Houaiss a palavra culto denota uma ‘reverência respeitosa a uma divindade (Deus, deuses, santos ou qualquer ente ou elemento da natureza divinizado).” Esta definição em momento algum implica em uma estrutura formal para o contato com o sagrado, que envolva gestos, posturas, momentos, locais ou palavras específicas – em outras palavras, rituais.
O que vale dizer que, em que pese a confusão entre os termos, a experiência sagrada do culto diferencia do sacerdócio porque o culto a uma divindade pode ocorrer de forma individual e mais ‘informal’, íntima.
Para todos os efeitos, o culto uma forma válida de contato com o Sagrado, que parece dispensar a ritualística e, como a própria palavra implica, precisa ser cultivado – culto, cultura e cultivo têm a mesma raiz lingüística.

Cultuar uma divindade, portanto, é uma ação que pode ser individual, mas que exige o contato constante – o cultivo – que fortalece e torna significativo esse contato com o Sagrado – tanto quanto o sacerdócio.
O culto é semelhante – mas não tão intenso – quanto a devoção, outra palavra muito usada nos círculos druídicos.
Devoção
Na raiz do termo devoção está a palavra ‘voto’ – o devoto é aquele que faz um voto à deidade, aquele que a ela se dedica. É uma relação íntima e pessoal, mais profunda do que o culto – pois este último pode ser grupal. A ligação ente o devoto e o Sagrado é geralmente tocante e profunda, e pode até envolver alguma prática ritual, mas não necessita de liturgias.

Uma das mais freqüentes críticas ao moderno mundo ocidental, com sua forte herança judaico-cristã, é a de que o Sagrado foi retirado da paisagem e da natureza, foi afastado do nosso dia-a-dia. De fato, o conceito de um deus distante em seu inacessível Paraíso torna difícil para muitos aceitar a idéia de que o Sagrado pode estar perto de nós. Muitos druidas e simpatizantes do druidismo ainda não conseguem se livrar dessa percepção e crêem que, para contatar o Sagrado, precisam necessariamente de uma formalização que lhes dê a condição de ‘sacerdote’. Afinal, desde a formação da igreja ocidental, “Deus está onde o bispo está, e quando o bispo se ausenta, Deus se ausenta.”
No druidismo não é assim. Ao menos, não necessariamente. Afinal, a proximidade dos deuses e deusas celtas pode ser comprovada pela já mencionada sacralidade da paisagem, e também pelos muitos registros de mitos e lendas nos quais os deuses e deusas interagem diretamente com mortais. Essa interação, aliás, é tão intensa que ocorre das mais variadas formas: deuses que vêm ao mundo dos mortais, mortais que vão ao reino dos deuses – pelos mais variados motivos: lutar contra os deuses, ajudá-los a desempenhar tarefas, relacionar-se afetiva e/ou sexualmente…

Essa forma tão celta de ver o sagrado preservou-se na Irlanda até mesmo nos primeiros séculos do cristianismo, com o desenvolvimento de um cristianismo independente do cristianismo de Roma. Em muitas ocasiões, esse cristianismo irlandês, chamado por suas diferenças de “cristianismo celta”, opunha-se abertamente aos preceitos e princípios da igreja de Roma, lutando durante séculos para manter-se independente dos dogmas impostos pelo Vaticano, enfatizando a importância da experiência individual do sagrado e, de certa forma, preservando noções perfeitamente pagãs no que tange à proximidade do divino e à sacralidade da natureza, de seus ciclos e forças.
Como se vê, o contato com o sagrado é uma constante na mentalidade celta - há um belo ditado irlandês que exemplifica bem isso: Tá Tír na nÓg ar chúl an tí, Tír álainn trína chéile , ou “Tír na nÓg (um dos nomes para o Outro Mundo irlandês) fica nos fundos de casa, um belo reino mesclado (a este).” Ou seja: este mundo – a realidade dos mortais – e o Outro Mundo – o domínio dos deuses – são, na verdade, um só. A compreensão desta verdade é fundamental para quem deseja de fato vivenciar a espiritualidade celta.
O que nos traz, por fim, ao último ponto deste ensaio, a última forma de experiência do sagrado contemplada neste estudo.
Vivência
Não é raro os praticantes do druidismo e de outras espiritualidades pagãs proporem, em celebrações, cursos e eventos, atividades descritas como ‘vivências’. De forma corrente, o termo ‘vivência’ é usado para definir atividades nas quais o participante não apenas recebe informação e/ou assiste a um ritual, mas experimenta algo, através da prática e/ou da reflexão proposta.
Experiência é, para todos os efeitos, tudo aquilo que vivemos. Aquilo que vivenciamos. Se trouxermos essa percepção para nosso estudo, o termo ‘vivência’ designa toda e qualquer forma de experiência do Sagrado, seja em rituais coletivos, no culto individual e na devoção pessoal. Nenhuma dessas formas – sacerdócio, culto, devoção - é superior ou inferior às demais, pois todas oferecem ao indivíduo o contato com o sagrado e a vivência plena desse contato.
A etimologia da palavra ‘sagrado’ remete ao particípio passado do verbo sacráre, ou seja: ‘consagrar, sagrar, dar caráter sagrado a; votar, dedicar’
Resgatando o Sagrado pelo Druidismo
Falando especificamente do druidismo, vimos na primeira parte deste ensaio que o Sagrado está na paisagem, nas forças da Natureza (tanto exterior quanto interior). Portanto, para o druidismo as forças da natureza externa – o clima, o tempo, a paisagem – bem como as da natureza interna - emoções, idéias, inspirações e conceitos – são sagradas. Em seus mitos, os deuses e deusas celtas que incorporam essas forças nos mostram a importância de se compreender as relações que estabelecemos com cada uma delas e conosco mesmos.
São muitos os níveis de relações que as lendas e mitos contidos nos antigos manuscritos da Irlanda e do País de Gales nos deixaram: um mito que nos fale de um deus soberano e doador da vida que se une a uma deusa associada à batalha e à profecia é muito mais do que um relato sobre o encontro de dois seres divinos. Se soubermos apreciá-lo, esse mito nos fornece um retrato preciso do encontro das forças criativas e destrutivas dentro de cada um de nós – individualmente e também nas relações que cada um estabelece com a família, a comunidade, o trabalho, os valores coletivos da sociedade…
Antes que os mais incautos afirmem que esta abordagem reduz os deuses a meros ‘arquétipos’ psicológicos, cabe lembrar que o termo arquétipo foi criado por Carl Gustav Jung, ele próprio profundo conhecedor da força dos mitos como um poderoso manancial para definir as relações humanas. Os mitos que tratam das deidades e figuras heróicas clássicas – Afrodite, Édipo, Gaia - costumam ser mais amplamente utilizados para esse fim somente pelo fato de que, por razões históricas, os mitos gregos possuem maior alcance no mundo ocidental; mas a mesma abordagem é perfeitamente aplicável e válida – desde que respeitosa – quando tratamos de mitos celtas. Isso só comprova a proximidade dos deuses e a valia de um contato mais íntimo e direto com eles.
Derrubando Pilares
Por influência da mitologia judaico-cristã e seu deus único e distante – mas também pela percepção clássica de deuses em retiro no alto do Monte Olimpo – muitos druidas modernos inconscientemente preservam esse distanciamento ao tratar dos deuses celtas, insistindo em uma relação desequilibrada em que os deuses e deusas seriam inacessíveis à todos, salvo uma minoria de ‘eleitos’ – os sacerdotes. Ao longo das duas partes deste ensaio, passeamos por diversos conceitos que derrubam essa percepção estereotipada – e, mais importante, não-celta.
Após séculos de afastamento do sagrado – primeiro pela distanciamento do Sagrado pela ótica judaico-cristã e depois pelo materialismo do mundo moderno – o druidismo como resgatado em nossos dias propõe a RESTAURAÇÃO de uma percepção do sagrado mais próxima, que divinize nossas vidas, o mundo em que vivemos e as relações que estabelecemos de forma equilibrada, ou seja: horizontal e em duas mãos.
De um ponto de vista druídico, não somos meros “joguetes dos deuses”, nem seus “servos”; tampouco somos seus “mestres” ou “senhores”. De forma simplista, somos parceiros dos deuses na eterna e contínua criação do universo, pois eles agem através de cada um de nós e nós vivemos através deles, em perfeita simbiose – tanto na relação coletiva do ritual celebrado por um sacerdote, quanto em nosso culto e devoção individual. O tempo todo, em toda parte.
© 2010 Claudio Quintino Crow é escritor, músico e instrutor de druidismo e cultura celta.
www.claudiocrow.com.br

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