Revisitando o Dia da Mulher…
Enviado em 8 de Março de 2010
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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Num velho texto (2004) sobre o Dia Internacional da Mulher, entitulado “Feminino e Masculino - em busca do equilíbrio“, expus minha visão de então sobre a questão do Feminino em nossos dias.
Tenho por hábito reler meus velhos textos, para avaliar o quanto meus pensamentos se transformam ou permanecem os mesmos, o quanto minhas ideias evoluem ou se mostram estáveis.
Em pleno Dia da Mulher 2010, convido @ amig@ a viajar no tempo e revisitar aquele artigo. Vamos lá?
Começa assim…
“Ninguém há de negar a importância da mulher na sociedade - seja na intimidade do lar, seja no mercado de trabalho, seja ainda na condução dos destinos da comunidade. Poderíamos passar horas citando exemplos de mulheres que contribuíram para a formação dos conceitos modernos na medicina, na educação, até mesmo na política - um cenário absolutamente masculino onde as poucas mulheres presentes atuam, no mais das vezes, de forma idêntica à de seus colegas homens, tanto no Brasil como em outros países.”
Interessante pensar nisso num ano em que a atuação das mulheres na política se mostra mais presente.
No Brasil, temos no momento duas pré-candidatas à presidência da república: uma com um discurso e uma atuação totalmente pautados pelo arquétipo masculino (confronto, conflito, conquista) e a outra que faz de sua plataforma algo tão arquetipicamente feminino que seu discurso parece nem ser político: meio ambiente, natureza, educação… pode parecer exagero, mas duas mulheres hoje polarizam o cenário político brasileiro num confronto que transcende a disputa política e partidária e atinge em cheio os níveis mais profundos do simbolismo masculino-feminino, animus/anima…
Do ponto de vista psicológico, uma hipotética vitória da primeira manteria o status quo atual, centrado em valores masculinos; por esse princípio, qualquer outro candidato, aliás, é continuísta - a única alternativa realmente diferente (não melhor, nem pior, mas diferente) seria a eleição daquela cujo discuros de fato encarna os princípios femininos do cuidado com a casa, com a tribo, com a natureza. Sintomático.
Afinal, não se trata simplesmente de se eleger uma mulher para algum cargo, se esta age e pensa como homem…
Uma verdadeira revolução seria eleger alguém - homem ou mulher, pouco importa - com uma mentalidade voltada para os valores do Feminino.
Está mais do que na hora de deixar de lado o embate entre os sexos e devover à relação masculino-feminino aquilo que ela tem de mais natural: a atração para fins de parceria.

Voltemos ao texto de 2004:
“Apesar de tudo, no entanto, ainda precisamos de uma data como o Dia Internacional da Mulher para reconhecer essa importância. Existe uma certa indignação implícita na data, pois se o dia 08 de março é o Dia Internacional da Mulher, de quem seriam os outros 364 dias do ano?”
Eis um ponto interessante. Nossa cultura atual é voltada para a “inclusão” das minorias: execramos qualquer tipo de discriminação por sexo, etnia, idade, etc. Ao mesmo tempo, contudo, usamos diversos mecanismos que fomentam essa divisão - dias de minorias, paradas de minorias, quotas para minorias… cinismo puro ou esquizofrenia cultural?

De volta a 2004:
“Seja na Antigüidade - por exemplo, entre os celtas da Europa primitiva ou no Antigo Egito - seja nos dias de hoje, nos mitos de culturas ditas “primitivas” (como os Maori da Nova Zelândia) podemos perceber nas mitologias - e mitologias são as religiões desses povos - uma relação de igualdade entre masculino e feminino. Deusas e deuses, heróis e heroínas - em equilíbrio e harmonia. Isso se reflete nas sociedades que seguem essa espiritualidade.”

Em minha apresentação no I Simpósio de Estudos Celtas e Germânicos na UFRJ, em 2005, apresentei uma abordagem do estudo da cultura celta (válido para qualquer cultura) em que o conhecimento de uma determinada mitologia (no caso, a celta) só é possível se conhecermos seus valores sócio-culturais, e o inverso também se aplica: só podemos compreender as motivações sociais de uma cultura quando mergulhamos em sua cosmovisão mitológica.
Pelo mesmo prisma, para entender as raízes dos desafios enfrentados pela mulher contemporânea é preciso compreender a mitologia sobre a qual se estrutura a nossa sociedade moderna.
Não se trata aqui de avaliar a riqueza ou a validade da espiritualidade dominante de nossos dias, mas sim de entender que efeitos os mitos, valores e ícones dominantes dessa espiritualidade causam à mulher moderna, sua imagem, seus valores, seu papel.

Se adotarmos somente a abordagem objetiva pautada em fatos, pode-se ter uma visão clara, porém superficial, das dificuldades encontradas pela mulher em nossos tempos - no mercado de trabalho, nos direitos, no lar - mas enquanto não questionarmos as origens mitológicas dessas dificuldades, enquanto não entendermos que as leis, os costumes e as práticas de nossa sociedade emanam de valores religiosos e espirituais seculares, enquanto isso não ocorrer a busca (chega de falar em luta!) por igualdade entre os sexos estará seriamente prejudicada.

Mais um trecho do artigo de 2004:
“Obviamente, uma cultura que acredite que tudo na Natureza possui uma face masculina e outra feminina - que se complementam - é uma cultura que preza o equilíbrio. Se eu pertenço a um povo que crê que deuses e deusas vivem harmoniosamente, eu reproduzo essa visão no meu dia-a-dia.”

Aqui, não importa se buscamos inspiração nos usos e costumes de uma cultura do passado, ou de outra dita primitiva, ou ainda que estejamos pela primeira vez introduzindo formas de agir e pensar inéditas na história da humanidade: o que importa é que sejamos capazes de fundamentar essa revolução de forma a consolidá-la para as gerações futuras.
Em outras palavras, não se trata meramente de olhar para o passado e dizer, “ah, na Era de Ouro é que era bom…”
Nosso desafio é criar uma Era de Ouro agora, em que valores masculinos e femininos convivam em harmonia não só entre indivíduos, mas também no interior de cada um (microcosmo) e na sociedade como um todo (macrocosmo).

Afinal, é da união sagrada do feminino e do masculino que surge o hierogamos grego, o despertar da kundalini hindu, o ser perfeito (andros + gymnos), o Casamento Alquímico.
Esta é a busca fundamental: o resto, diriam, é mero cosmético, mero detalhe.
Retornando ao artigo original:
“O mito da Natureza como Mulher é forte e antigo. No Egito, Ísis é a grande mãe. Na Suméria, a deusa Inanna é a geradora da vida. Ishtar da Babilônia é a mesma. Entre os índios do Brasil, Guaraci é a Mãe Sol. Na Grécia dos filósofos, berço da cultura ocidental, Gaia é a Terra viva. A agricultura é a dádiva de uma deusa: Deméter. E assim por diante. A Natureza é sempre feminina.
Nosso planeta é vivo, como provam os estudos de James Lovelock, pesquisador inglês que nos anos 70 criou a Hipótese Gaia: “o Planeta Terra é um organismo vivo, auto-regulável e que reage ao que nós humanos fazemos a ele”.”

Em tempos de tantos tremores de terra, tsunamis, efeito-estufa, alterações climáticas radicais, parece redundante alertar para a necessidade de voltarmos a perceber a natureza (tanto a local quanto a global) como uma entidade viva e que, como tal, deve ser respeitada. Não se trata aqui de um respeito reverente nem de intimidade. Mas um respeito puro, de um ser vivo (eu, você, ele) por outro (o planeta, a paisagem, uma árvore).
Eis o paradigma a ser quebrado: a natureza não é mais “inimiga do ser humano”, como pregava a igreja e depois seus herdeiros bastardos iluministas; tampouco é o ser humano “guardião” da natureza, como dizem os bem intencionados ambientalistas: o ser humano é PARTE da natureza, a ela se mescla e com ela interage.

Mais uma vez, 2004:
“Por tudo que já dissemos antes, fica claro que o Feminino, a Mulher e a Natureza são na verdade uma única realidade. Não é por acaso que, até mesmo em nosso mundo ocidental, patriarcal tanto do ponto de vista social quanto do espiritual, a Natureza é chamada de Mãe… Afinal, Natureza é uma palavra latina que significa, literalmente, “aquilo que nasce”. A luta da Mulher por espaço e reconhecimento em nossa sociedade anda de mãos dadas com a luta de nosso planeta por um pouco mais de carinho por parte do mundo ocidental.”
Se muitas mulheres na política são mulheres em tudo, menos no discurso e na postura, por sua vez muitos homens atualmente têm uma abordagem totalmente feminina no lidar com a questão ambiental - o nome deo ex-vice-presidente norte-americano Al Gore salta à mente - seu discurso é conciliador, sua preocupação é coletiva, sua ação é de cura. Obviamente, no mundo político isso é raro - tanto entre homens e mulheres.

Mas Al Gore não está só, ao contrário: são mais e mais pessoas que entendem a necessidade de se rever posturas e valores na busca de um mundo mais harmonioso tanto para homens quanto para mulheres.
Afinal, como escrevi em 2004:
“Precisamos rever nossos conceitos de superioridade. A mulher sofre porque durante séculos era uma cidadã de segundo nível. A Natureza sofre porque o ser humano julga-se superior às outras criaturas. Não somos superiores a ninguém. Somos todos parte de uma mesma criatura, a Terra - feminina, que nos gera, nos nutre e nos acolhe a todos humanos, cães, árvores, rios…
Durante séculos, a igreja relutou em reconhecer que a mulher também possuía alma: isso tem origem na misoginia de alguns dos pensadores que moldaram o cristianismo em seus primeiros séculos e que se perpetuou desde então. Eis a prova do quanto os mitos e a espiritualidade de uma cultura moldam nossa forma de ver o mundo, a vida, a si mesmo.
Em termos espirituais, a mulher era vista como “as portas para o inferno”, a “causa da queda” - os atributos arquetipicamente femininos - geração e manutenção da vida, educação, nutrição - foram tomados do feminino e artificialmente atribuídos ao masculino. As implicações psicológicas de uma visão espiritual que faz o feminino surgir de uma parte (”costela”) do masculino são brutais.
Isso se reflete em termos sociais, em que mulheres até recentemente eram vistas como ‘propriedade’ de seus pais, passando depois a ser ‘propriedade’ de seus esposos. Ainda hoje, há quem pense assim - e nem estou falando de culturas remotas no tempo ou no espaço, falo de uma realidade que permeia o pensamento de muitos que vivem nos grandes centros urbanos de nossos dias…
Menos mal que as leis modernas começam a mudar esse cenário, a igreja, finalente, reconheceu no século XIX (!) que a mulher tem, sim, uma alma…
Eis por que, para a maioria das pessoas, um cavalo, uma árvore e um rio ainda não possuem alma: o caminho será longo até que mais uma vez esses seres, como na “Hipótese Gaia” acima mencionada, sejam vistos como possuidores de uma vida, no mínimo, tão sagrada quanto a de um ser humano.

Pelo visto, algumas coisas melhoraram desde que escrevi o artigo original seis anos atrás e agora. Mas muito, muito ainda precisa mudar.
Essa mudança deverá ser uma verdadeira revolução - e como todas as revoluções duradouras, ocorrerá - está ocorrendo - sem uma liderança, sem um manual de instruções, sem um livro doutrinário: livre e desimpedida, expontânea e fluida como as lendas dos povos primitivos, como as marés dos oceanos, como os ventos a acariciar os cabelos das mulheres e homens do mundo.
Termino com o mesmo parágrafo final de 2004:
“Assim como humanos não são superiores às demais criaturas, o homem não é superior à mulher. Chegou a hora de desenvolver uma nova visão, uma nova mitologia, que nos torne capazes de perceber que as diferenças entre homem e mulher, na verdade, permitem que todos cresçamos. Em paz. Em harmonia. Em equilíbrio.”
Feliz Dia do Feminino. Em Sagrada União com o Masculino.



Claudio querido,
como sempre,muito tocante e “pensante” seu texto, alias, tenho amado todos os textos que recebi. só não consgui responder.
retomando seus textos anteriores e as aulas, agradeço por tudo que cresci e por re aprender a amar a natureza, ou seja, a mim mesma e ao ser humano. sei que ainda tenho um longo caminho, mas nosso primeiro passo é o mais importante.
beijão