Um Presente de Primavera: a “Eucatástrofe” de Tolkien
Enviado em 2 de Outubro de 2009
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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Costumo dizer que Tolkien teve o ‘azar’ de ser um dos maiores escritores de fantasia de todos os tempos. Afinal, sua deslumbrante obra - “O Senhor dos Anéis”, “O Silmarillion”, “O Hobbit”… - são tão brilhantes que ofuscam seus apreciadores para outros trabalhos seus considerados “menores”, mas muito mais profundos…

Disse o velho Professor, nos idos de 1939:
“Criei o termo ‘eucatástrofe’: uma súbita guinada feliz numa narrativa de tão pungente alegria que nos leva às lágrimas (as quais, a meu ver, são a mais elevada função a ser produzida pelas lendas). E desse ponto fui levado a ver que esse efeito peculiar (das lendas) é gerado por uma breve percepção da Verdade: toda a sua natureza, aprisionada numa corrente de causa-e-efeito material - a corrente da morte - subitamente sente um alívio semelhante a um membro deslocado que instantaneamente volta à posição correta. A sua natureza percebe - se a história possui ‘verdade’ literária no nível secundário (…) - que é precisamente assim que as coisas funcionam no Grande Mundo de que é feita a nossa natureza.”
Este parágrafo, extraído do último trecho de seu genial ensaio “On Fairy-Stories”, apresenta o neologismo ‘eucatástrofe’ - do grego eu-, “boa”, + catastrophe, tradicionalmente, a conclusão de uma trama.
Nos parágrafos anteriores de “On Fairy-Stories”, Tolkien nos conduz por sua longa apreciação do gênero literário da ficção, indo muito além disso: com suas palavras, Tolkien restaura a profundidade, a importância, a vitalidade e - por que não? - a sacralidade das lendas. Essa profundidade, essa sacralidade estão presentes em todas as lendas e mitos do mundo - pois, como bem disse Joseph Campbell, “damos o nome de ‘mitologia’ à espiritualidade de outros povos’. (Ou seja, “o meu é religião, o dos outros, mera ‘mitologia’” - como se ‘mitologia’ se referisse a algo menor, inferior.)

MITOS, LENDAS, CONTOS - Profundidade transformadora
Assim como Campbell, Tolkien ultrapassou os limites da apreciação e estudo dos mitos, mergulhou em seu lastro primitivo mais profundo e encontrou aquilo a que chamamos de “mitopoese” - o poder criativo e transformador dos mitos.
A ‘eucatástrofe’ de Tolkien é facilmente identificada em sua obra: contra todos os prognósticos, ao final de ‘O Senhor dos Anéis’ os desesperados - no sentido literal - povos da Terra-Média conseguem livrar-se de Sauron graças a destruição do Anel. Seu amigo CS Lewis usou a mesma imagem com o retorno aparentemente implausível de Aslan, assim como o Neo cravejado de balas na Matrix consegue retornar à vida. Obviamente, a mais conhecida ‘eucatástrofe’ do ocidente é a Ressurreição de Cristo, a que Tolkien chama de “a maior ‘eucatástrofe’ na maior das lendas”.
Mas não é só na ficção moderna ou nas palavras dos Evangelhos que identificamos a ‘eucatástrofe’: Neo, Cristo e Frodo juntam-se a Luke Skywalker, Mithras, Dionísio, Inanna e muitos outros divinos que, contra todas as expectativas e probabilidades, vence os intransponíveis obstáculos e muda a história.
FELICIDADE: a base da ‘Eucatástrofe’
A felicidade é condição primordial da ‘eucatástrofe’: assim, ela não é uma mera ‘peripécia’ - termo que, em grego, designa a mudança de curso numa trama: nas tragédias, tão preciosas aos gregos, a ‘peripécia’ ocorre quando a alegria se vai e a tristeza se instala. Para Tolkien, “a tragédia é a mais verdadeira forma do drama, sua principal função”. Afinal, segundo Aristóteles, é através da vivência da tragédia que se experimenta a catarse - a purificação das almas através das emoções sucitadas pelo drama.
Num mundo greco-romano / judaico-cristão como este em que vivemos, a dor da tragédia e do drama é vista como quase desejáveis. Há casos em que são mesmo, até necessários.
Mas Tolkien não se satisfaz com essa percepção: para ele, deve haver - como em tudo no universo - um contraponto, um ‘outro lado’, um elemento que traga equilíbrio à relação - e, portanto, às nossas almas: se a tragédia aristotélica traz o expurgo e a purificação da alma pela tristeza, a alegria e a felicidade dos ‘contos de fadas’ traz a cura pela alegria, pela graça. Esta é a função da ‘eucatástrofe’.
MUDANÇA EM CONTEXTO: CURA
Que não seja ela, contudo, confundida com aquilo a que no drama grego se chama “deus ex machina” - o deus na máquina, a virada incongruente e totalmente desconexa na narrativa que muda tudo sem causa aparente, sem ser conseqüente, sem ser coerente - e que marca . A ‘eucatástrofe’ surge dentro de um contexto, possui um nexo, não foge do roteiro.
Partindo, enão, da moderna ficção (’Matrix’, ‘O Senhor dos Anéis’, ‘Crônicas de Nárnia’…), recuando aos mitos da Antigüidade (A paixão de Cristo, os mitos de descida de Inanna e Sêmele, o renascimento de Osiris, de Mithras…) e indo mais além, veremos nas antigas construções megalíticas das Ilhas Britânicas sinais de busca pela ‘eucatástrofe’.
PRIMAVERA: A ‘EUCATÁSTROFE’ PRIMORDIAL
Há milhares de anos, o evento anual do Equinócio de Inverno se apresenta aos humanos como um testemunho da salvação que nasce do desespero - no ventre escuro e gélido do auge do inverno está sendo gestada a esperança do retorno da luz e do calor. Stonehenge na Inglaterra e Brugh na Bóinne na Irlanda são apenas dois dentre diversos monumentos construídos naquelas ilhas para fortalecer a esperança de que sim, o inverno um dia acabará.
O mesmo vale para outros povos ao redor do planeta, como os egípcios e suas construções em Karnak, por exemplo - também elas alinhadas ao nascer do sol no Solstício de Inverno.
Este momento astronômico representa a peripécia - a mudança no rumo das coisas, a mudança no rumo do sol, a mudança nas estações. Meses depois, com o degelo, com a cheia do rio, com a mudança trazida por essa guinada, surge a Primavera: a ‘eucatástrofe’ está completa.
Para nós, hoje, com nossa míope percepção ‘científica’, a chegada da primavera é só mais um dia. Para os povos da Antigüidade, atentos aos sinais da paisagem e ao simbolismo de suas ricas lendas e mitos, este era o momento de descobrir que, após o inverno, sempre há primavera. Após a noite, sempra há aurora. Após a tristeza, a dor e o sofrimento, sempre há a recuperação da alegria.
‘EUCATÁSTROFE’ em nós
Para Tolkien, uma lenda, um conto-de-fadas, “nega (mesmo diante de muitas evidências) a derrota final universal - e assim é um pouco de evangelium, pois oferece um vislumbre da Alegria - Alegria para além dos limites do mundo, tão pungente quanto a dor.”
É desta alegria que nos falam as flores, as aves e os insetos da Primavera. É nesta alegria do renascimento, da recuperação, da esperança, da cura, que podemos mergulhar na Primavera.
‘Eucatástrofe’: foi preciso que um sábio Professor de Oxford criasse uma estranha palavra para nos fazer lembrar que a Primavera, anualmente - e o despertar, diariamente - nos trazem “o vislumbre da Alegria”, a Graça que abençoa nossas vidas.



