De Filosofias, Música, Palavras Difíceis… e Clarice Lispector
Enviado em 13 de Julho de 2009
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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Teorias e filosofias são as pernas da mente e da alma: por elas, nossa consciência se desloca, avança, muda e se transforma, numa peregrinação sagrada rumo ao auto-conhecimento – que é, em última análise, sinônimo de conhecimento do mundo. O conhecimento, por sua vez, é a percepção daquilo que há e daquilo que é. Percepção essa que é transitória, pessoal, mutável, volátil.
Nunca me arvorei de filósofo, por entender – ainda que sem concordar - que essa é uma denominação que, hoje, cabe àqueles que se submetem às formalidades do ensino acadêmico. Por outro lado, advogo, sim, o direito de restabelecer o sentido original da palavra ‘filósofo’ – um ‘amigo da sabedoria’ – que pode e deve ser usado por quem teça as suas teorias e filosofias, mesmo que sem o rigor da teoria aplicada. Nesses termos, filósofos nós os encontramos aos montes nas mesas de restaurantes, nas conversas de amigos, nos balcões de bares. Filosofar é pensar, questionar, querer saber mais. Mas divago.
Anos atrás, me dispus a um trabalho que considero interessante: entender meu entendimento do mundo. Ou seja, compreender porque tenho as idéias que tenho, porque penso o que penso, temo o que temo, sinto o que sinto, sou o que sou.
Presunçoso trabalho, esse - que me leva a presunçosas leituras, de textos psicológicos, mitológicos, etnográficos, filosóficos. No processo, tento evitar os chavões das leituras superficiais e de resenhas dos principais nomes, assim como evito me deixar encantar demais com autores cujas idéias sejam facilmente identificadas como semelhantes às minhas.
Acabei por esbarrar em algumas idéias para mim novas, mas que se mostraram sedutoramente semelhantes a conceitos em que creio e tenho como certos - como a Teoria dos Processos de Whitehead e a “Fé Animal” de Santayana.
A primeira me ajudou a entender porque pessoalmente me é impossível aceitar as limitações de uma visão que rotule idéias, abordagens e percepções como pertencendo a esta ou aquela corrente. Nada é uma coisa só sempre: toda teoria, conceito ou idéia é, na verdade, um mero e passageiro retrato instantâneo por parte do observador, que depende de incontáveis variáveis atuando sobre o objeto a partir do meio mas também, e principalmente, do próprio observador.
A frase que melhor definiria essa percepção é, “não existe nenhum ‘ser’, pois tudo é ‘estar’”.
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Tudo no universo são percepções momentâneas e individuais - e mesmo nos casos em que tais percepções sejam comuns a uma coletividade, esta última é em si mesma uma entidade individual. Tudo, portanto, é transitório, nada que é hoje era igual ontem ou será o mesmo amanhã. Assim, em termos de experiência e de percepção, “é impossível nadar no mesmo rio duas vezes”.
Essas reflexões me levaram a cunhar outra frase, dessas que cabem muito bem em tatuagens ou motes: “sempre o mesmo, nunca igual”. A essência muda e se transforma, mas jamais deixa de ter a sua origem.
Essa abordagem sistêmica e processual me é muito útil ao avaliar mitologias – uma das minhas principais atividades – e também ao viver minha vida cotidiana. Pois não são todas as mitologias lições de vida cotidiana? E não são as vidas cotidianas a matéria-prima das mitologias?
Em meio a esse fogo cruzado de idéias e quebras de paradigmas, esbarrei mais uma vez nos textos do filósofo hispano-americano George Santayana e sua “Fé Animal”: a “base arracional para qualquer postulação de conhecimento”, algo que ele define como “instinto racional”, presente em nossa essência mais primal.
Interessante admitir que a mais ‘elevada’ e ‘elaborada’ das filosofias tem em sua base (ainda que seu próprio postulante relute) um elemento instintivo ‘primitivo’ e ‘bruto’, mas fundamental para a elaboração de qualquer percepção do universo – das retóricas discussões acerca da existência da alma à simples diferenciação de dois tons de azul.

Tudo é, no fundo, uma questão de percepção dos universos interior e exterior a partir de valores “instintivos” presentes no observador.
Vãs Palavras Difíceis
É impossível abordar temas como estes sem o uso de expressões e recursos lingüísticos rebuscados, cansativos – o que me leva automaticamente a questionar a valia de um texto como este. Seguramente nem eu, ao relê-lo, chegaria até aqui sem cansar, por que então outros o leriam?
O ‘peso’ de teses, teorias e conceitos, contudo, não está nos termos difíceis, mas sim na própria incapacidade desses termos em expressar os conceitos, teses e teorias que, pretendemos, eles definam.
Santayana vai além: para ele, qualquer tentativa de racionalizar e filosofar esbarra na inerente e inevitável não-totalidade de um conceito ou teoria, pois nenhuma teoria – nenhuma - é capaz de expressar em sua totalidade um conceito, qualquer que seja este. Isso explica a dificuldade de se lidar com as expressões, termos e conceitos, como mencionamos acima. Porém, mais do que isso, explica porque, no universo das espiritualidades, a vivência dos mistérios não pode ser traduzida em palavras; explica porque a irracionalidade de alguns argumentos aparentemente racionais é aceita por um ou mais indivíduos, da mesma forma que explica porque conceitos e teoria muito elevadas são de difícil expressão.
Esses conceitos, de certa forma, são como a música:
”A Música expressa aquilo que não pode ser dito e sobre o que não se pode permanecer silente.”~ Victor Hugo
Já se disse que a música é a linguagem primordial, anterior à palavra; já foi dito que a música rege o universo e que nele é encontrada; assim, a música constitui uma excelente forma de linguagem que nos põe em comunicação com a essência da nossa existência – nossa como indivíduos, mas também nossa como espécie humana.
Talvez seja por isso tudo que Santayana conteste a própria atividade filosófica, pois a postura cética e as provas contrárias ao ceticismo, segundo ele, comprovam sua inutilidade, sua incapacidade de levar a coisa alguma.
Em muitos momentos, é isso a que este texto se dispõe: levar a coisa alguma. Espero que ele cumpra seu papel junto ao hipotético e improvável – e, se real, definitivamente masoquista – leitor.
Mas não há de ser esta sua única meta: talvez eu queira também fazer intuir que a “fé animal” de Santayana tenha uma forma simples de se apresentar mesmo a quem não se dá a grandes vôos filosóficos: é fácil, muito fácil e prazeroso, ouvir as verdades inefáveis do universo através da música.
Síntese? Ei-la:
“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
~ Clarice Lispector
“The only business of the head in the world is to bow a ceaseless obeisance to the heart.” — William Butler Yeats
(”A única função da cabeça neste mundo é curvar-se em eterna obediência ao coração.”)