Então você quer “evoluir”?
Enviado em 20 de Abril de 2009
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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O recente aniversário da “Teoria da Evolução das Espécies” de Charles Darwin trouxe essa palavra às capas de revistas, manchetes de websites, prateleiras de livrarias e exposições em museus ao redor do mundo.
Mas o que é, de fato, ‘evoluir’? E mais importante: como saber o que é a evolução num contexto individual, pessoal, prático - e não somente “das espécies”?

Em termos etimológicos, ‘evolução’ vem do latim evolutìo,ónis: ‘ação de percorrer, de desenrolar’; radical de evolútum, supn. de evolvère ‘rolar de cima, arrojar, despenhar, precipitar, rolar para fora, estender, desdobrar, desenrolar, tirar de, fazer sair, pôr fora; desenrolar, desdobrar, desenvolver’.
Nada, nenhuma palavra acima, remete ao sentido de evolução como “crescimento”, “progresso”, melhoria.
Aliás, segundo o dicionário Houaiss, “a noção de ‘mudança progressiva de posição ou de natureza no espaço ou no tempo’ é relativamente recente, a noção de ‘evolução no espaço’ tem origem por volta do sXVI; já as noções de ‘transformação, mudança, desenvolvimento’ surgem por volta de 1670, nas línguas ocidentais.”
Então é positivo e desejável que alguém queira evoluir - mas não creia que isso necessariamente implica em melhoria.
Tampouco evolução é, em termos ‘espirituais’, a busca da ‘iluminação.’
Esse conceito esbarra na indesejável dicotomia que opõe “luz” e “escuridão”, atribuindo à primeira uma conotação positiva e, à segunda, um sentido negativo. Se assim fosse, tente, então, viver sem escuridão, sem noite, sem inconsciência, sem repouso: tente viver só na luz, na iluminação e na racionalização, e você perceberá que seu corpo, sua mente e sua alma sofrerão o stress do excesso de consciência, do excesso de atividade, do excesso de racionalismo, da falta do sonho, do devaneio e do repouso.
Ora, afinal, então o que é “evolução”?
É o desenrolar, o percorrer. Sem valores ‘positivos’ ou ‘negativos’: apenas o trilhar do caminho. Eis um dos segredos da vida.
Filosoficamente é fácil compreender este conceito - basta deixar de lado (ainda que temporariamente) as convicções profundamente arraigadas em nossa psiquê que nos ditam o que é viver bem, o que é seguir um “bom caminho”. Mas o desafio está em não só deixar de lado o conceito do “bom caminho” para compreender que não existe “bom” ou “mau” caminho. Só existe O caminho. E o seu trilhar.
Em seu inspiradíssimo “Anam Chara”, o teólogo irlandês John O’Donohue explora a temática da evolução a partir da frase do Cardeal John H. Newman:
“CRESCER É MUDAR, E SER PERFEITO É TER MUDADO CONSTANTEMENTE.”
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Então, por princípio, evoluir é aceitar - ou melhor, é compreender e, por que não, desejar - a mudança.
Nada é mais assustador do que a mudança… nada é mais fácil de se lidar do que a ‘familiaridade’. Buscamos essa familiaridade em nossas vidas - cercamo-nos de elementos que conhecemos bem, e que nos trazem a sensação - eu disse sensação - de segurança.
Trabalho, família, amigos, ideais, crenças, filosofias. Gostamos do que conhecemos, desconfiamos do que não nos é familiar.
O novo é o abismo, sempre sedutor; como bem disse o tcheco Milan Kundera: ‘a vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.‘
O novo, a mudança, é o vertiginoso abismo que nos atrai. Mas o medo do novo, a racionalidade e os conceitos que nos dizem que o familiar é bom porque é conhecido logo sabotam essa sedução irracional. A racionalidade é a luz, a sedução é a escuridão do abismo. Luz é dia, razão, masculino. Escuridão é noite, intuição, feminino. Só existe perfeição na soma de tudo, no Casamento Sagrado. Que nunca, nunca acontecerá se tememos o novo!
Temer o novo é temer o escuro, é negar o instinto, e fugir da noite e artificializar o dia, é viver penso e eternamente apoiado somente na perna da razão e atrofiar a musculatura da perna da emoção, da intuição, da alma. Não há casamento sagrado sem a escuridão.
Sem o novo, sem a mudança, não há evolução.
E sem evolução, não há perfeição. A sabotar o processo, desde o início, a covardia da ‘familiaridade’. Nas sábias palavras de uma conhecida minha, “a intimidade é uma merda”…
Quando perguntado sobre o caminho para a felicidade, Joseph Campbell, ele mesmo um mito já, verbalizou a receita:
“Follow your Bliss.”
Siga a sua bem-aventurança, vá atrás daquilo que lhe faz feliz, que faz sua alma brilhar.
Essa frase fez tanto sentido à minha mente e à minha alma que só me restava marcá-la no corpo para sempre. Um lembrete tatuado no braço para que eu nunca esqueça de que, por vezes, seguir a bem-aventurança implica em mudanças. Implica em riscos. Implica em mergulhar no desconhecido, em abraçar o novo, em descartar o ‘familiar’, em ousar, pular no abismo escuro, ouvir a voz do instinto e da intuição - muitas vezes dando a impressão de que, ao fazê-lo, estamos traindo nossas crenças e convicções.
Falsa impresão - traição é não seguir sua bem-aventurança! Isso é condenar-se a uma ‘meia-vida’.
Afirma Kundera:
“Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido.”
Então a mudança é uma espécie de ‘traição’? Sem dúvida - mas uma traição positiva, uma transgressão dos limites auto-impostos, que permite prosseguir com o processo de evolução, de busca da perfeição. Se a palavra ‘traição’ lhe soa pesada, veja o que diz John O’Donohue:
“A perfeição não é o esquivamento ao risco e ao perigo. (…) Quando se é FIEL ao risco e ambivalência do crescimento, está-se empenhadndo a vida. A alma gosta de risco; é somente pela porta do risco que o crescimento pode entrar.”
Então Kundera nos convida a trair a ‘ordem’ da familiaridade em busca do desconhecido, do novo, da mudança; a mudança é a perfeição; e O’Donohue nos estimula a sermos fiéis ao risco e à ambivalência.
Trair ou ser fiel? Trair a ‘ordem’, ser fiel ao novo… gosto de paradoxos.
Mas o que encontramos quando traimos o conhecido e saltamos no abismo do desconhecido, quando deixamos para trás o familiar e nos lançamos rumo ao ‘novo’? O que existe ao final dessa verdadeira peregrinatio existencial? Nós mesmos.
Brad Paisley, estrela da country music norte-americana, tem uma belíssima canção chamada “Find Yourself“, na qual ele diz:
“às vezes, quando nos perdemos no caminho, tudo fica bem, pois é exatamente aí que encontramos a nós mesmos.”
É preciso uma enorme coragem para livrar-se do conforto de nossas crenças e lançarmo-nos de encontro a nós mesmos, no escuro espelho de nossas almas!
É preciso uma enorme coragem para saber que o caminho - as mudanças, o novo, o desconhecido - é muitas vezes mais importante que o destino final da jornada. Se assim não fosse, ninguém faria o ‘Camino’, bastaria ir para Compostella.
O que muda, o que transforma, o que nos faz evoluir não é chegar ao destino, mas sim percorrer o caminho.
Percorrer. Evoluir.
Então você quer evoluir?
Encontre a si mesmo. Siga sua bem-aventurança.


Lindo texto Cláudio!
Aloha!
Qualquer mudança é uma melhoria, se for reparar.
Pior é ficar estagnado pensando que já se é perfeito. “Piorar” um pouquinho ajuda a melhorar mais e mais!
Mas como esses conceitos são tão vagos, a coisa complica.
Owwwwwww, para mudar com certeza temos que deixar de ser cabeças-duras e abrir os olhos para o novo, certo?
E, pelo q eu entendi, ou o que eu quis entender, sei lá, mudar é trair a teimosia; deixa quieto.
Aloha!
Bravo! Eu não teria feito melhor!
Este texto veio a calhar neste exato momento
Valeu por compartilhar,
Lu.
Nossa, esse texto é muito bom!!! Eu, como psicoterapeuta, estudo, estimulo e busco a mudança em mim, meus clientes e no mundo. E ainda não havia encontrado uma análise tão completa, detalhada e extremamente lúcida como esta. Pensar na mudança como processo e não como fim dá um outro significado à mesma. E torna leve essa busca.
A frase de Joseph Campbell, uau, que sacudida!!
Parabéns, Cláudio! Quero mais desses!!
Excelente texto, cara!
Continue assim!
Grande abraço
Excelente texto!
Precisava ler algo hoje … e isso me animou pacas!