Ritmo, Celebração, Roda do Ano e… Hemisférios
Enviado em 8 de Outubro de 2008
Publicado por Claudio Quintino Crow | Enviar por e-mail
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A questão da celebrção dos festivais celtas - popularmente conhecidos como “A Roda do Ano” - é, sem dúvida, uma das mais controversas para os praticantes de vertentes da eco-espiritualidade de origem européia. Isto porque um dos elementos básicos desses festivais celtas são as estações do ano - que, no Hemisfério Sul, são invertidas com relação ao Hemisfério Norte.
O tema é vasto, portanto peço ao amigo leitor que encare este texto como uma mera introdução ao debate sobre o tema – e que sempre tenha em mente que não existe resposta “única”ou definitiva para a questão: apenas reflexões que precisam sempre – como toda reflexão – da prática para ser ou não efetiva.
O ponto fundamental é a inversão das Estações do Ano entre os Hemisférios – quando é inverno no Norte, é verão no Sul, quando é outono no Norte, e Primavera no Sul e assim por diante.
Para alguns praticantes, essa inversão justifica a alteração das datas dos festivais, para adequá-los ao ritmo sazonal no Hemisfério Sul. Tem sentido, e funciona - especialmente na wicca e em outras correntes da chamada bruxaria moderna, que adotam a mitologia conhecida como o “Romance da Deusa”, em que cada festival corresponde a uma ‘fase’ na relação estabelecida entre a figura tipicamente romântica da Grande Mãe e o Deus seu amante/filho.
(Nunca é demais reforçar que essa mitologia recente ecoa a figura do “incesto sagrado’ presente em outras mitologias da Antigüidade, mas não se reflete nos mitos e lendas celtas.)
Contudo, a passagem das estações do ano não é a única - nem a mais importante – origem dos festivais celtas, o que faz com que outras correntes neo-pagãs percebam nessa inversão uma ruptura com a poderosa energia dos festivais em suas datas originais. É o caso de diversas vertentes do druidismo moderno.
Por enfatizar um mergulho mais aprofundado nos mistérios das celebrações, seu simbolismo e seu poder transformador, o druidismo estimula que, para que se possa desfrutar da energia dos festivais celtas, outra solução seja adotada - afinal, é impossível deixar de notar que os temas mais profundos das datas do calendário druídico original são tão fortes e potentes que sobrevivem e encontram paralelos em outras tradições mágico-espirituais, como o cristianismo e a astrologia.
Ora, nem o cristianismo, nem a astrologia são invertidos no Hemisfério Sul - apesar de suas incontestáveis origens e associações a eventos astronômicos e sazonais do Hemisfério Norte. E ninguém em sã consciência há de questionar a validade tanto da mitologia cristã como da ciência astrológica em terras meridionais.
Assim, quando um druida se dispõe a compreender não só o simbolismo, mas também as origens e os significados de cada festival, percebe que existem muitos outros fatores - mitológicos, espirituais, arquetípicos - associados a cada festival, que não devem ser desprezados - sob pena de se acessar somente uma parcela ínfima do poder transformador dessas datas.
Não há como negar: é do conhecimento e da compreensão dos mitos, costumes e lendas de cada festival que surge uma vivência plena desses momentos especiais.
E são justamente os mitos dos festivais que nos fornecem uma indicação preciosa de como os druidas no Hemisfério Sul podem acessar a ancestralidade espiritual de seus festivais sem perder contato com a paisagem na qual estão inseridos. Afinal, para uma espiritualidade como o druidismo - em que a ligação entre o indivíduo e a paisagem, seus ciclos e ritmos sagrados, é tão importante - não faria sentido abrir mão da conexão com esses ciclos e ritmos.
Por outro lado, temos o seguinte: numa cultura como a celta, em que lendas e mitos são atribuídos a cada característica da paisagem e da Natureza, o fato de não haver lendas ou mitos equinociais ou referentes aos solstícios suporta a tese de que tais datas não eram observadas pelos celtas – e mesmo que fossem, não dispomos atualmente de registros suficientes para sua revitalização.
Existem evidências inegáveis de que os povos pré-célticos da atual França e das Ilhas Britânicas atribuíam grande importância a esses eventos astronômicos – vide os monumentos megalíticos de Stonehenge, Newgrange e tantos outros. Não há, contudo, indícios de que os celtas fizessem o mesmo. Isso pode ser parcialmente explicado pelo fato de que os celtas pareciam possuir um calendário originalmente lunar - e solstícios e equinócios são fenômenos solares.
Assim, até o momento temos a seguinte situação:
a) Os quatro festivais originais que compõem a roda do ano celta – Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadah - possuem diversos mitos e lendas a eles associados que, quando devidamente estudados, nos fornecem elementos preciosos para sua vivência;
b) A força desses mitos e lendas pode ser atestada por sua sobrevivência em outras correntes mágico-espirituais (cristianismo, folclore e astrologia);
c) Nessas correntes, sua sobrevivência é perceptível nas mesmas datas, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul;
d) Os celtas não celebravam nem solstícios, nem equinócios, como indica a ausência de mitos correlatos.
Isso abre a perspectiva da criação de um sistema que permita aos druidas do Hemisfério Sul preservar a conexão espiritual e simbólica com as datas originais, sem descuidar - como convém a druidas que se prezam - da ligação com a paisagem local. Como isso ocorre?
Ocorre justamente graças à ‘liberdade’ que a ausência de práticas, mitos e costumes originalmente celtas associados a solstícios e equinócios oferece para que o druida harmonize-se com os ciclos da paisagem externa que o rodeia - enquanto que a observação dos quatro festivais celtas mantém a ‘ponte espiritual’ que conecta o druida meridional às suas origens e à sua herança mito-religiosa.
Trocando em miúdos, a “roda mista” permite que, ao celebrar os festivais celtas em suas datas originais, o druida acesse seu poder transformador em toda a sua profundidade graças à vivência dos mitos e lendas, enquanto que a celebração dos solstícios e equinócios pelas datas do sul fortalece a conexão sagrada entre o indivíduo e o mundo em que vive.
Afinal, o druidismo só tem sentido de fato quando atende-se a uma das mais belas tríades druídicas:
“São três os deveres de um druida:
- curar a si mesmo;
- curar a comunidade;
- curar a terra,
sem o que não merece ser chamado de druida.”
Como visto, a “roda mista” oferece uma excelente oportunidade de se praticar o druidismo nesses três níveis.
© 2008, Claudio Quintino Crow
Registrado na Biblioteca Nacional – Lei Federal 9.610/98.
Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor.
Concordo plenamente. Acho que a maturidade espiritual de cada pagão acaba passando por essa conclusão mesmo. Pelo menos a minha sim, rsrs.
Nosso otimo texto parabens…
Concordo com o que você fala, gostei muito do texto… inté
Complementei algumas informações e transformei este texto em parte integrante do site - está na seção “VIVER DRUIDISMO”…
http://www.claudiocrow.com.br/druidismo_roda_do_ano.htm
Bom proveito!