A Arte do Bardo, ou De Como Alfred Lord Tennyson e a Atual Invasão Russa da Geórgia Contam o Mesmo Mito
Enviado em 18 de Agosto de 2008
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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O Bardo: uma das mais nobres figuras da ancestral sociedade Celta, ele era indispensável para a sobrevivência de toda essa sociedade porque a ele cabia conhecer, preservar, atualizar e transmitir a história daquele povo.
Na Irlanda, os poetas eram tidos em tão alta estima que, nas grandes ocasiões, eles tinham precedência até mesmo sobre os reis.
Através de incontáveis mitos, lendas, linhagens e eventos históricos, o bardo era o guardião das tradições espirituais, sociais e culturais das tribos celtas – uma mistura de poeta, sacerdote, historiador e conselheiro.
Por conta disso, a palavra bardo hoje significa também “a voz de uma cultura’ – aquele poeta cujas palavras ecoam as idéias de uma sociedade – as quais, por sua vez, refletem os princípios e os valores que norteiam essa sociedade. Na Inglaterra, até hoje existe a figura do “Poet Laureate”, o poeta que é encarregado pela Coroa de preservar através dos seus versos os principais eventos do reino – ou seja, a modernização da sagrada função dos bardos do passado.
No Séc. XIX, um dos mais brilhantes dentre os ‘poetas laureados’ britânicos foi Alfred Lord Tennyson (abaixo) que, em 1854, eternizou nos versos de “The Charge of the Light Brigade” (“A Carga da Brigada Ligeira”) a heróica - e equivocadíssima – ação militar dos soldados britânicos contra as tropas russas na Criméia. Tão influente foi seu poema que gerou ao menos três produções cinematográficas, algumas dezenas de pinturas e, mais recentemente, o clássico sucesso do Iron Maiden “The Trooper”.

O pano de fundo para o ataque britânico às tropas czaristas era a crescente ameaça que os russos representavam ao expandir seu império nas fronteiras dos domínios britânicos no Oriente. Em poucas palavras, um Império constituído – o Britânico – lutava para impedir que outro império – o russo – ameaçasse seu poderio na região.
O adágio diz que “a História se repete” – e a piada complementa que “os historiadores repetem-se uns aos outros”: a experiência humana – a que damos hoje o nome de História, mas da qual faz parte também a Poesia - não se cansa de confirmar. Neste “evoluído” e “globalizado” século XXI, após os conflitos entre os expercitos russos e da Geórgia na até então obscura região da Ossétia do Sul, as ameaças – veladas e declaradas – de russos e norte-americanos sobre a situação na região não podem passar desapercebidas aos historiadores; nem aos poetas e bardos.
No druidismo, compreendemos que a “matéria-prima” dos bardos é o Passado – as sagas, lendas e histórias de nossos ancestrais. Mas também cabe ao bardo perceber aquilo que serão as sagas, lendas e mitos do futuro: e estas nada mais são do que nossas ações hoje.
Como já dito, na tradição druídica era função do bardo conhecer e preservar sua herança espiritual e cultural. Os textos históricos nos mostram que isso era feito através de um longo processo em que o bardo deveria registrar – sem o uso da palavra escrita – os incontáveis mitos, lendas e contos de sua história. Esses mitos e lendas não eram simplesmente “memorizados” na mente do bardo: para preservá-los vivos, era preciso trazê-los no coração – daí a expressão “de cor” - em francês “de coeur”, em italiano “di cuore”, em inglês “by heart” – saber com o coração, não só com a mente.
Afinal, é só quando meus mitos, minhas lendas, minha história e minha herança permanecem vivos no meu coração que sou capaz de realmente compreendê-los – entender seus significados, seu simbolismo, suas motivações, suas causas e conseqüências.
Da mesma forma que é absolutamente inútil “decorar” (no mau sentido da palavra) datas, eventos e nomes – e aqui fica a crítica ao atual modelo de ensino da História -, de nada adianta a um “candidato” a bardo moderno saber recitar os Quatro Ramos do Mabinogi galês ou relatar do começo ao fim o Táin irlandês se esse candidato não sabe para quê fazer isso.
A pedra de toque é a motivação: e as lendas e mitos da Antigüidade (que são a História ainda integral, poética, heróica, viva dos povos) só tem sentido quando o narrador, poeta ou bardo sabe para quê contar aquele mito – e a determinar isso, ele deve saber qual o simbolismo do mito, qual a transformação que ele propõe, que efeitos pode gerar à audiência.
Assim, dentro da herança celta, o verdadeiro bardo e contador de histórias não é um alienado que vive num mundo de fantasia – da mesma forma como o historiador não deveria ser um alienado que viva mergulhado no passado. Tanto um quanto o outro vivem nos nossos dias: dias de contas a pagar, de conflitos e revoluções sociais, emocionais e pessoais, de globalização… e de invasões russas à Geórgia.
Por aliar a sensibilidade do poeta à pesquisa do historiador, o bardo – de hoje e de ontem – deve saber interpretar os fatos, identificar os padrões, antever possíveis desfechos, inspirar ações.
A quem as escaramuças fronteiriças na Geórgia possam parecer um evento isolado e distante, basta lembrar que a Guerra da Criméia eternizada nos versos de Tennyson no longínquo 1854 tem conseqüências diretas na atual política russa para a região.
E a quem pense que isso está muito longe do nosso dia-a-dia, basta lembrar que entre a Guerra da Criméia e hoje, em meados do século XX, a anexação de um território por outro império passou desapercebida para a maioria das pessoas, mas escalou ao conflito hoje conhecido como II Guerra Mundial. O que parecia uma exagerada demonstração de força de um império gerou a reação de outros impérios que se sentiram ameaçados. Como os britânicos contra os russos no século XX; como britânicos e norte-americanos contra os alemães no século XX; e, a julgar pelo tom das palavras de norte-americanos e russos nas últimas semanas, talvez de novo no século XXI.
A História se repete, e os historiadores repetem-se uns aos outros. Mas os bardos devem ir além e interpretar o que a História nos sussurra aos ouvidos, para transmitir a mensagem à sua audiência.
Afinal, é somente quando a mantemos viva que a História se revela em toda a sua força e poder de transformação - inspiração que move à ação.
© 2008 – Claudio Quintino Crow
O texto é de 2008, o conflito em questão já entrou para as páginas da história, mas o princípio é atemporal.