Dos Mistérios da Paternidade, ou Porque Amo a Brí Tanto Assim
Enviado em 15 de Agosto de 2008
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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Dos Mistérios da Paternidade, ou Porque Amo a Brí Tanto Assim

Quando a Brigitte anunciou, através de um teste de gravidez, que estava se preparando para invadir minha vida com a sutileza de uma voadora na porta, eu estava prestes a completar meu trigésimo oitavo aniversário. Confesso que, naquela altura, eu ainda vivia um tanto assombrado pelo fantasma de “ficar para semente” – ter um filho sempre fez parte dos meus planos, mas depois de um período meio longo sem o principal “ingrediente” - a candidata a mãe –, eu começava a achar que esse sonho não se materializaria.
Foi aí que apareceu a Carina – e, algum tempo depois, veio a voadora da Brigitte…
É difícil evitar os chavões – tudo mudou, a vida ganhou novo significado, blablablabla. Tudo isso é verdade. Mas todos sabemos que meninos demoram mais que meninas para amadurecer emocionalmente – alguns de nós jamais conseguem! - E a questão da paternidade custou um pouco a se assentar dentro de mim. Em momento nenhum eu tive dúvidas ou questionamentos: Brigitte era total e absolutamente bem vinda e desejada. O que gerava questionamentos eram os tradicionais fantasminhas do “E agora? Será que serei um bom pai? Será que estou preparado? Será que ela vai gostar de mim?” E a mais cruel – ainda que a maioria dos pais não admita: “Será que eu vou gostar dela?”
Mas como assim? Gostar de um filho ou uma filha não é algo automático, instintivo, natural? A resposta é: sim e não. É claro que é difícil não ser tocado por um rostinho pequeno que tanta coisa tem do seu próprio rosto – e também da pessoa que você ama, fornecedora dos demais 50% de cromossomos. É claro que um bebezinho da sua espécie é algo que sempre toca seres humanos com um mínimo de… com o perdão da redundância, humanidade. E é claro que há o “senso comum” que nos diz que sim, “pais amam seus filhos”. Mas tem algo mais que deve surgir com o tempo – um algo mais que, como a mais profunda das magias, é um verdadeiro mistério – no sentido literal da palavra.
Mistérios
Segundo algumas fontes, a palavra mistério deriva do grego ‘myein’, que significa “calar-se”. Muita gente acha que mistério é o mesmo que segredo, mas não é: segredo é algo que você opta por não revelar. Mistério, por sua vez, é algo impossível de se pôr em palavras – daí seu uso por muitas religiões para suas mais místicas e fundamentais experiências espirituais. Mas divaguei.
A paternidade é realmente um mistério: não é algo que se possa por em palavras, não é algo racional, não é algo possível de se compartilhar com quem não tenha uma experiência, no mínimo, semelhante. Daí que uma das rubricas para a palavra mistério é justamente “culto secreto, ao qual não eram admitidos senão os iniciados” (Houaiss). Se você não passou pela experiência, não será capaz de compreender. É parecido com o amor – por mais que se tente, não há como definir “amor” com palavras. É um mistério. Calo-me.
Pois o amor – que não é paixão – é o tal sentimento que deve brotar na paternidade – e o amor, nas palavras de um genial pediatra que conhecemos (graças à Brigitte!), “o amor não vem pronto: amor se conquista.” Essa frase, dita assim solta no meio de uma consulta, foi para mim uma verdadeira ‘revelação epóptica’ (meus alunos hão de se lembrar dessa expressão!), uma percepção cristalina pela alma - e não pela razão - dos processos em ação. Claro, pensei naquela altura: ainda não amo Brigitte como racionalmente achava que deveria pelo fato de que amor é algo que se forma, que se conquista, que se define a partir do convívio, da conquista entre uma alma e outra – de espírito para espírito.
O fato é que com o tempo, e livre da pressão psicológico-social que vinha me torturando, pouco a pouco vi a formação do elo de amor que me liga àquela criaturinha que a cada dia se parece mais comigo, e que a cada hora se parece mais com a mãe, e que cada vez mais se parece mais consigo mesma.
A paternidade é um duplo mistério – é uma experiência que não pode ser posta em palavras, e é também a vivência de um dos maiores mistérios da existência, que é o amor. Como todo amor – ou melhor, como tudo na vida – o amor paternal não é incondicional: não existe nada incondicional, tudo está sujeito ao fluxo da relação entre A e B (sejam A e B pai e filha, mãe e filho, amante e amada, pessoa e cão, ser vivo e alimento…). Quando o fluxo da relação entre A e B é positivo, então o amor encontra solo fértil para se desenvolver. Qual broto tenro de uma plantinha, pouco a pouco ele vai se desenvolvendo, lançando raízes cada vez mais profundas e erguendo seus ramos aos céus para florescer e frutificar.
A compreensão desses processos – que tosca e contraditoriamente tento aqui pôr em palavras – foi o fertilizante que faz com que meu amor pela pequena Brí seja hoje maior do que ontem, e amanhã seguramente será maior do que hoje. Livre da pressão racional, o meu amor por ela enfim achou espaço para se desenvolver. É fácil perceber isso agora, em que, aos oito meses de idade, cada sorrisinho dela vem como um jorro de afeto e alegria de estar perto – um jorro de amor. De minha parte, o mínimo que eu posso fazer é retribuir. E isso é muito fácil. Não preciso pensar; é natural; é impossível de descrever. É um Mistério. É mágico.
© 2008 – Claudio Quintino Crow
parabens, q benção para vcs 2 uma nenem!