Enviado em 13 de Maio de 2008
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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O quão “Verde” é a sua “Espiritualidade Verde”?
O Druidismo é uma “Espiritualidade Verde”. O que isso quer dizer? Quer dizer que o druidismo, ao lado das diversas correntes xamânicas modernas e tradicionais, da bruxaria moderna, do hinduísmo e de tantas outras sendas espirituais, tem por base e por princípio o fato que a natureza é viva porque tudo tem energia. Energia é alma. E as almas da Natureza são divinas, são deidades.
Esse discurso é um ponto comum a praticamente todos os caminhos pagãos da atualidade – e não poderia ser diferente, dada a origem do próprio termo “pagão” (aquele que vem do pagus, do campo, da Natureza). Mas esse mesmo discurso é uma armadilha para os mais incautos – não é raro encontrar pagãos das mais diferentes vertentes vociferando contras a espécie humana e seus desmandos e irresponsabilidades – eu próprio já fiz parte desse coro sedutor, que nos arrebata e empolga pelos argumentos aparentemente irrefutáveis de que de fato “o ser humano é uma criatura vil, destrutiva, suja e maligna” – e aqui reside a armadilha.
Um mínimo de reflexão nos mostra facilmente que a insistência nesse discurso tende a puxar o gatilho de um processo de auto-negação que a princípio pode se aplicar à espécie humana apenas de forma retórica, abstrata - mas que acaba por minar, nos mais profundos níveis do subconsciente, a própria natureza humana de quem adota esse discurso. E, em última análise, atinge em cheio a auto-estima, o senso coletivo, o respeito ao ser humano em geral – respeito esse que se deve não por ser o ser humano ‘superior’, ‘mais evoluído’, ‘eleito’ ou o que for, mas simplesmente porque o ser humano é MAIS UMA das tantas espécies que compõem a grande comunidade da Terra.
TRIBO
Uma das características mais marcantes do druidismo é seu senso de coletividade. Até em função do papel histórico dos druidas como conselheiros, juristas, poetas, historiadores, curandeiros e “até mesmo” sacerdotes da sociedade celta, é possível afirmar – como o faz o escritor Jean Markale que “não existe druida sem a comunidade”. Não por acaso druidas tendem a formar grupos, ordens, clãs, groves, Gorseddau ou qualquer outro termo que se use para designar um grupo de pessoas que vivenciam o druidismo.
Diante disso tudo, temos as seguintes reflexões:
- por prezar e honrar a comunidade, o druidismo é uma espiritualidade ‘tribal’;
- por prezar e honrar a Natureza, o druidismo é uma espiritualidade ‘verde’;
- o druidismo vê toda a Natureza como uma Comunidade Sagrada, da qual faz parte o ser humano;
- a Natureza é a fonte da sacralidade do druidismo;
Parece claro, então, que o druidismo só é de fato uma “Espiritualidade Verde” quando se mostra capaz de REINSERIR o ser humano na Natureza num contexto coletivo, comunitário e divino – e isso só acontece quando o ser humano resgata o divino de sua PRÓPRIA existência.
Em outras palavras: o ‘discurso verde’, por si só, de nada serve. A ‘ação verde’, se exclui o ser humano, serve pouco. O que precisamos, então, é de uma mentalidade que perceba e resgate o Divino Natural no seio do próprio Universo Humano - o conjunto de conceitos e idéias que envolvem as artes, as cidades, a agricultura, as leis, as relações dos humanos com o ambiente e com as outras espécies…
MAIS EVOLUÇÃO!
Há bem pouco tempo, a maioria das pessoas não se sensibilizava com as agressões humanas a rios, mares, florestas, animais em extinção e outras questões ambientais. Os últimos anos assistiram a uma evolução: muitos dos que hoje se revoltam com esses crimes adotam uma postura de denúncia, protesto e boicote numa militância útil e válida, mas que perde sua força ao atacar o ser humano e excluí-lo da Comunidade Natural – por ironia, exatamente como o fazem os que não se sensibilizam com as questões ambientais…
Percebe-se, então, que essa evolução já cumpriu seu papel – é necessário uma nova evolução, que desperte mais pessoas para essas questões não apenas com críticas às mazelas da urbanização, da sociedade de consumo e da exploração desenfreada dos recursos naturais mas que também ofereça alternativas práticas, aplicáveis não a longo prazo pelos governos ou grandes corporações – mas aqui, agora; por mim, por você, por todos nós.
Esse é o nosso desafio atual: achar o Verde muito além da floresta e dos mares – achar o Verde em cada um de nós.
© 2008, Claudio Quintino Crow – Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia e expressa autorização por escrito do autor. Registrado na Biblioteca Nacional - Lei Federal 9.610/98.