Iniciação druídica?
Enviado em 10 de Agosto de 2007
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
| Hits para esta publicação: 449
Muitas pessoas me procuram atrás de uma ‘iniciação druídica’. Natural, pois o universo neo-pagão nutre uma verdadeira obcessão por cerimônias iniciáticas e “patentes” que ‘autentiquem’ o ingresso neste ou naquele caminho espiritual.
Isso ocorre porque em diversas tradições neo-pagãs existe uma ênfase exagerada na questão do sacerdócio.
Imaginemos então uma sociedade composta só de sacerdotes: quem cultivaria os alimentos? Quem defenderia essa sociedade? Qualquer sociedade é composta por várias funções, e o sacerdócio - por mais importante que seja - é apenas uma dessas funções.
O druidismo reconhece a sacralidade de todas as funções sociais, e em todas elas é possível vivenciar o sagrado. Até por isso não é necessário uma “iniciação” sacerdotal para para se vivenciar o druidismo.
Ao contrário: por conta disso, o druidismo vê todas as funções como sagradas, de modo que o Sagrado está presente em todo e cada momento de nossas vidas - e não só num ritual.
Essa é uma das razões que dificultam a definição em poucas palavras do druidismo: ele é uma religião, mas é também uma filosofia, uma postura, uma forma de viver, que traz de volta a sacralidade do nosso dia-a-dia.
No druidismo, a iniciação é cada despertar para um novo dia, em que a magia dos deuses, da paisagem e de nossos ancestrais é vivenciada em sua plenitude.
Quer dizer que não precisamos de uma iniciação para ‘ingressar’ no druidismo?
Em primeiro lugar, não existe um ‘ingresso’ no druidismo. Para o druida, o druidismo é o mundo em que vivemos, em todos os seus detalhes - todos nós, portanto, já estamos no mundo do druidismo, só precisamos perceber.
Essa percepção ocorre, dentro de um ponto de vista druídico, através do Conhecimento - que por sua vez inspira nossos pensamentos, reflexões e ações.
O Conhecimento - a informação, a consciência dos fatos e processos - é que torna a Roda do Ano druídica, por exemplo, uma das suas mais poderosas formas de magia.
Da mesma forma, o conhecimento acerca das origens do druidismo e de sua história, de suas crenças e filosofias e também de suas transformações é por si só um processo tranformador para quem trilha este caminho. Superior, poderíamos dizer, a qualquer cerimônia iniciática.
Então as cerimônias não valem para nada?
Não é isso - claro que valem. Cerimônias e rituais são processos pelos quais ocorrem transformações - seja qual for a religião de que estejamos falando.
Os rituais se valem de símbolos para transmitir suas mensagens transformadoras. Esses símbolos são captados pela nossa mente subconsciente, operam em níveis mais sutis. Mas a sua ação em nossas almas é potencializada pelo conhecimento dessa linguagem simbólica, que amplia seu efeito.
Costumo comparar uma iniciação a um grande filme com um grande elenco, um grande roteiro e um grande diretor: se alguém o assiste sem entender, então não desfruta da grandiosidade do filme.
passar por uma cerimônia de iniciação sem preparo prévio, portanto, é o mesmo que assistir ao filme sem entendê-lo. Nada se ganha, além de uma grande frustração.
Quer dizer que o druidismo não tem iniciações?
Tem. mas só para quem deseja - e é apto - a seguir um caminho mais sacerdotal. Mas é perfeitamente possível viver a vida de forma druídica sem uma iniciação formal.
Essa é a beleza do druidismo.