A Velha e a Jovem Dançarina
Enviado em 8 de Agosto de 2007
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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A Velha há muito jaz doente - envenenada, intoxicada e desfigurada -
mas o pior de tudo: ignorada. Faz muito tempo já que os Mais Jovens
resolveram “deitá-la” para sempre num leito fétido e mal cuidado,
abandonando-a e privando-a daquilo que lhe é mais precioso: sua
própria vida.
Seu corpo doente e alquebrado mal consegue se mover, mas dentro dele
vive ainda a Jovem Dançarina, lépida e cheia de vida como outrora - e
na alma da Velha reside a certeza de que, se lhe derem uma chance, ela
voltará a dançar, remoçará, renascerá…
Mas como lhe dariam uma chance? Como, se ela há tanto tempo está ali,
imóvel, inerte, doente?
O máximo que os Mais Jovens fazem é perceber que, de tempos em tempos,
a Velha se incomoda demais com o descaso e resolve atormentar quem
perto dela está, lançando seus impropérios e recusando-se a receber as
cavalares doses de substâncias químicas que lhe envenenam o corpo e
turvam a alma. “Afinal, ” pensam os Mais Jovens, “por que essa Velha
não se contenta em permanecer quieta onde está? Nós lhe demos um leito
definitivo, estamos tentando reduzir as doses de substâncias químicas
a ela administradas, mas mesmo assim ela insiste em nos atirar essas
substâncias de volta… por que ela insiste em nos causar tantos
problemas? Ela tem sorte de não lhe darmos logo um fim definitivo -
quem gosta de uma Velha desagradável, fétida e suja como essas?”
Alguns dentre os Mais Jovens, porém, perceberam que não é assim que se
trata alguém como a Velha. Perceberam que algumas das reclamações da
Velha eram procedentes, tinham sentido - a Velha, vejam vocês, era
grande demais para o leito que lhe deram! Por paternalista piedade,
então, alguns dos Mais Jovens se puseram a tomar ações mais
respeitosas perante a Velha. Deram-lhe de fato um novo leito, cuidam
melhor do que há ao redor da Velha, e pouco a pouco ela reduz suas
queixas e ‘atitudes inconvenientes’.
Mas por ora, é isso. Ainda que alguns dos Mais Jovens tenham -
finalmente! - dado ouvidos às queixas da Velha, ainda que tenham
aprendido a escutar seus gritos revoltados, a maioria deles não parece
capaz de ouvi-la - ouvir sua voz normal, não os seus gritos.
Esperar o que? Quem mal ouve gritos jamais ouvirá sussurros…
Pois a Velha ainda sussura - por mais doente e irrecuperável que Ela
esteja. A voz da Velha ainda entoa velhas canções, recita antigos
versos, que remetem a um período em que Ela era jovem, uma linda
dançarina, cheia de vida e brilho… quantas memórias… doces memórias…
Das lembranças da Velha brotam antigas lendas e contos, que remetem ao
Tempo antes dos Tempos, quando os Mais Jovens sequer haviam chegado.
Naquela época, Ela já dançava - e como dançava! Em incontáveis voltas
e rodopios, a Velha traçava seu bailado pela planície em suas vestes
verdejantes, atraindo para perto de si, por sua beleza e sua
generosidade, muitos outros. Os animais vinham ter com ela
periodicamente, e também os Mais Jovens quando viram-na pela primeira
vez a desejaram. Bela, formosa e cheia de vida, realmente desejaram-na.
A princípio eram poucos, e desejaram-na como amiga e amante. Dançavam
também, no ritmo das suas voltas, deitavam-se em seu leito,
mergulhavam em sua essência, fartavam-se com o alimento que ela
graciosamente lhes oferecia.
Pouco a pouco, porém, outros foram se aproximando. E a Dançarina não
mais conseguia atender a todos como gostaria. Arrebatados pelo ciúme
doentio, os Mais Jovens primeiro exigiram mais da Jovem Dançarina do
que ela poderia de fato oferecer. E depois, cegos pela cobiça,
deixaram de ouvir seus alertas, tiraram-lhe a dignidade, prenderam-na
e restringiram seus movimentos.
(É difícil entender como uma relação azeda assim em tão pouco tempo…
mas é o que costumamos fazer com quem amamos - ou melhor, com quem
dizemos ‘amar’: primeiro prometemos o mundo, depois deixamos de ouvir,
para mais tarde ignorar e, por fim, agredir… Estranhas criaturas,
os Mais Jovens…)
O fato é que a Dançarina adoeceu. O pouco caso com que nós, os Mais
Jovens, passamos a tratá-la foi uma grande decepção para ela. Outrora
a Jovem Dançarina cheia de vida, agora ela era a Velha - inútil, sem
graça, sem atrativos, feia.
Seu corpo doente fez adoecer, obviamente, sua alma. A Velha está
triste com sua situação.
Claro, por vezes ela realmente precisa gritar, precisa agredir alguém
par ser ouvida, para que simplesmente se lembrem dela, que ela ainda
está ali, vendo a todos passar cuidando de suas vidas, sem dar atenção
a essa Senhora, sagrada por sua ancestralidade.
Mas a Alma da Velha ainda é a Jovem Dançarina, carinhosa e doce. Tudo
o que ela quer é que ouçamos as suas antigas canções, entoadas em voz
doce e sussurrada. Por traz da Velha rabugenta, ainda vive a Jovem
Dançarina.
Eu confesso que já reclamei da Velha - achava-a, como acha a maioria
de nós, inoportuna, inconveniente e decrépita. Mas a vida me ensinou
que mesmo os velhos inconvenientes têm sempre algo a nos ensinar, sempre.
E um dia ouvi algo que me transformou. Transformou minha visão da
Velha. Ouvi algo diferente dos longos períodos de silêncio, e também
diferente dos gritos revoltados de seus momentos de crise. No
turbilhão da cidade, em meio ao vai-e-vem indiferente dos Mais Jovens,
ouvi a voz doce e sedutora da Jovem Dançarina. Sim, ela ainda está lá!
Sua voz soava baixa e quase incompreensível - como que sufocada por
toneladas de dor e descaso sobre ela atiradas.
Mesmo assim, eu a ouvi. E quase pude sentir o toque suave de seu
corpo, quase pude aspirar o seu perfume silvestre. O pulsar da alma da
Jovem Dançarina ainda enche de vida a Velha - nós é que não sabemos ouvir!
Foi então que perguntei-lhe seu nome. Perguntar é o segredo, deixar de
perguntar pode ser a ruína, como bem sabe o nobre Persival… A minha
pergunta despertou memórias de tempos de glória, em que ela ainda era
a Jovem Dançarina que corria pelos campos de Piratininga. Cheia de
vida e emoção, com uma pontinha de esperança a romper a crosta da
velhice, a voz da Jovem Bailarina me respondeu, “meu nome é Tietê”…
Ah, nós, os Mais Jovens… mal sabemos nós que essa Velha que tanto
desprezamos e agredimos com nosso descaso e nossa inércia é, na
verdade, a Mãe de todos os paulistanos…
Claudio Quintino Crow /|\