Mãe Sagrada, Mãe Arquetípica, Mãe Real, Mãe Terra
Enviado em 13 de Maio de 2007
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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Ano após ano, no Dia das Mães, canais de televisão, estações de rádio, jornais, revistas e sites dedicam-se a matérias especiais enaltecendo aquela que nos gerou – nossa mais direta ancestral, que nos formou, educou, transmitiu-nos valores, dedicou-nos seu amor. Para os que ainda têm suas mães por perto, é um lembrete anual de que devemos gratidão incondicional a quem nos oferece amor igualmente incondicional. Para os que não têm essa oportunidade, é um dia de sentir saudades, de relembrar, de reconhecer, de agradecer.
Meu trabalho como pesquisador me habituou ao papel de “advogado do diabo”, questionando as questões tidas como ‘inquestionáveis’ para mergulhar mais fundo nos aspectos inexplorados dos temas – e com o Dia das Mães não seria diferente. Afinal, a mãe estereotipada dos comerciais de televisão nem sempre – quase nunca, eu diria – corresponde à riqueza da individualidade de cada mãe. Nem toda mãe educa com um sorriso nos lábios, nem toda mãe corresponde necessariamente à figura daquela que doa “amor incondicional”, até porque muita vezes a mãe nem está presente. A opressão trazida com o bombardeio de estereótipos maternais neste período atinge em cheio aqueles que foram adotados, que perderam sua mãe cedo ou que simplesmente nunca nutriram relações harmoniosas com suas genitoras, por qualquer que seja a razão…
Foi por isso que vi com muitos bons olhos a postura lúcida da comentarista Soninha Francine no sempre excelente programa “Saia Justa”, ao questionar o arquétipo da mãe que ama incondicionalmente. Como ela bem disse, trata-se de um estereótipo cultural – e, portanto, grupal, coletivo - que nem sempre corresponde à realidade individual de cada um.
Mas de onde vem esse arquétipo, e qual a sua importância direta para nossas vidas?
Em seu monumental “A Grande Mãe”, o escritor Erich Neumann faz uma analise profunda do simbolismo psicológico da figura materna, tanto em seu aspecto agradável quanto no terrível. Apesar de variações gritantes de cultura para cultura, a imagem e o simbolismo da mãe gira em torno de temas comuns: a geração de vida, a nutrição, a educação (amiúde através da imposição de limites), a proximidade da morte (aquela que gera também ceifa a vida).
A esse estudo psicológico, somamos as teorias antropológicas desenvolvidas no século XX por nomes como a britânica Margaret Alice Murray - que na década de 1920 levantou a hipótese de que a Europa pré-cristã dedicava-se ao culto a uma deusa da fertilidade e, portanto, materna – e também Marija Gimbutas, que décadas mais tarde dedicou-se a ampliar os estudos e teses da Profa. Murray. São fontes interessantes para que deseje de fato compreender o que significa a figura da Mãe.
Mas por que compreender a imagem da Mãe é importante?
Porque é ao redor dEla que nossas vidas pessoais e coletivas gravitam. Numa sociedade em que os valores do patriarcado espiritual judaico-cristão se somam aos do patriarcado síocio-cultural greco-romano, resgatar o Feminino é de suma importância. As mitologias de povos da Antigüidade oferecem diversos modelos da imagem da Mãe – a Deméter dos helênicos, Dyctynna em Creta, Inanna na Babilônia, Ísis no Egito, Cybele na Anatólia: todas essas deusas nos oferecem visões maravilhosas de aspectos preciosos da Mãe. E mesmo no universo masculino do cristianismo, elas contribuíram - de forma velada, é verdade – para a formação do mito de Maria, sobrevivência do Feminino Sagrado e atualmente a principal característica do cristianismo católico.
Costumo dizer que os mitos e lendas não são meras histórias de entretenimento, mas sim relatos transformadores que nos revelam aspectos profundos de nossa existência individual e coletiva. Os mitos falam a linguagem dos deuses, que é a linguagem dos símbolos, captados não por nossa mente racional, mas sim por nosso subconsciente – ou, se preferir, por nossa alma. Os poderosos símbolos arquetípicos das deusas acima mencionadas – e existem muitas mais – permitiram aos professores Neumann, Murray e Gimbutas estabelecer paralelos entre diferentes culturas distantes no tempo e no espaço, mas unidas pelo fato de serem todas humanas – algo a que CG Jung chamou de “inconsciente coletivo”.
Isto posto, fica fácil identificar elementos, símbolos e imagens iconográficas de deusas do passado na figura de Maria, “Mãe de Deus” – prova de que os símbolos que nos conectam ao verdadeiro arquétipo mais profundo não são limitados por mudanças culturais, geográficas ou cronológicas, mas subsistem e sobrevivem no interior de cada um de nós.
Compreender, transformar, curar
Quando através dos mitos e da compreensão de seu simbolismo intrínseco acessamos os níveis mais profundos da figura da “Mãe”, toda a nossa percepção sobre o tema se transforma. Passamos a entender melhor os por quês de, em nossa sociedade ocidental moderna, a mulher ser socialmente inferiorizada, de a maternidade ser desvalorizada. E ao compreendermos os “por quês”, temos acesso aos “comos” – como mudar esse cenário, como reequilibrar nossos valores. Uma sociedade equilibrada inevitavelmente é aquela em que os papéis do masculino e do feminino são compreendidos, respeitados e cultivados em harmonia – isso pode ser observado em diversas culturas do passado, como a celta, na Europa, ou a hindu, no Oriente. É um princípio-chave do Tao – o equilíbrio dinâmico ente as polaridades, o pulsar saudável do coração, da respiração, do dia e da noite, do masculino e do feminino.
Essa compreensão, quando real, altera nossa relação com o mundo no qual vivemos, tanto num nível individual quanto num coletivo, promovendo a harmonização. E essa harmonização se chama CURA.
A Mãe Real
Seja ela chamada de Maria, Ísis ou Cibele, seja ela mitológica ou real, seja ela física ou abstrata, a Mãe Real se manifesta em cada fêmea com sua cria, em cada educadora, em cada mãe adotiva, em cada momento que um indivíduo – independentemente de seu sexo ou opção sexual – cria, gera, nutre, educa.
É dessa Mãe que mais precisamos hoje: de nada adiantam mulheres no governo se, como mostram as experiências recentes, elas agem ou são levadas a agir como homens – do que realmente precisamos é de uma abordagem maternal do que seja governar: nutrir um povo, educá-lo, curá-lo, assisti-lo, sem “paternalismo” (o nome já diz tudo…), mas com educação de fato, transmissão de valores – tudo aquilo que falamos no início acerca da mãe arquetípica.
Da mesma forma, os valores maternais podem ser encontrados na forma afetiva com que um pai (só para não atrelarmos a “Mãe Real” somente à imagem da mulher) ensina algo a seu filho, ou que um chefe se preocupa com o bem estar de seu funcionário – qualquer relação em que a abordagem seja humana, ética, coerente e flexível – como as mães costumam ser.
Não esqueçamos, porém, de que o próprio Erich Neumann fala do outro aspecto, menos divulgado posto que menos agradável – da “Mãe Terrível” – aquela que pune o mau filho, o mau funcionário, o mau cidadão – como a ave que, pelo bem de um filhote saudável, alimenta-o com o segundo a romper o ovo. Tirânico a nossos olhos, sábio aos da Natureza.
Pois falar de Mãe sem mencionar a “Mãe Natureza” seria, no mínimo, incoerente. É dela, dessa Mãe Primordial, que tiramos praticamente todos os mais profundos conceitos do que é uma Mãe: qualquer agricultor ou criador de animais sabe que a Natureza gera, nutre, educa, fortalece, pune quando necessário, premia quando merecido, ceifa, recicla, restaura.
Num nível coletivo, a moderna sociedade ocidental não tem tratado mito bem de sua Mãe. O preço a pagar é conhecido e esperado: poluição, devastação e superpopulação trazem esgotamento de reservas, fome, aquecimento global, perda da qualidade de vida.
Micro-Mãe, Macro-Mãe
Durante todo o artigo, pus-me a falar de diferentes fontes que abordam a questão do Feminino em geral e da Mãe em particular: disciplinas como psicologia, antropologia, mitologia, religião e espiritualidade – todos se somam e se retro-alimentam num processo contínuo que, quando vislumbrado, permitem a cada um de nós perceber que não importa quem seja ou tenha sido minha mãe física: a ela devo “pelo menos” o fato de existir, de estar vivo – gostando disso ou não. Conhecer suas motivações, sua história, seu passado, é conhecer nossa história, nosso passado individual. E “só sabe para onde vai quem sabe de onde vem”, como sempre digo em meus cursos… Pois então que sejamos capazes de redescobrir as múltiplas facetas de nossas mães pessoais, biológicas ou de criação, conhecidas ou não, afetivas ou não. Essa é a “micro-mãe”, a mãe individual de cada um.
Da mesma forma, nossa sociedade moderna como um todo precisa redescobrir sua Mãe, aquela que gerou a todos nós, que nos permite viver, que nos orienta (ainda que nem sempre lhe demos ouvidos…): nossa Macro-Mãe: nossa Mãe Terra. Ela tem tentado nos dar sinais, e bons filhos atendem aos sinais de suas mães. Os maus filhos costumam por ela ser punidos…
Consciência Filial
O universo se assemelha a uma daquelas tradicionais bonequinhas russas: sempre que compreendemos um nível, descobrimos que há algo mais profundo e sutil por trás dele. A compreensão da “Mãe Real”, em sua faceta mais profunda e universal no mundo em que vivemos auxilia-nos a viver melhor como cidadãos, como membros de uma coletividade. Da mesma forma, o entendimento do que seja essa “Mãe Real” em nossa individualidade – independentemente de sexo ou opção sexual – ajuda-nos a ser melhores filhos, melhores criadores, melhores educadores, melhores governantes – seja de nossa famílias, seja de nossas sociedades, seja de nossas vidas individuais.
Bons filhos e filhas tendem a ser bons pais e mães. O futuro – individual e coletivo – depende desses valores.
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