Feminino e Masculino - em busca do equilíbrio
Enviado em 8 de Março de 2004
Publicado por Claudio Quintino (Crow) | Enviar por e-mail
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Ninguém há de negar a importância da mulher na sociedade - seja na intimidade do lar, seja no mercado de trabalho, seja ainda na condução dos destinos da comunidade. Poderíamos passar horas citando exemplos de mulheres que contribuíram para a formação dos conceitos modernos na medicina, na educação, até mesmo na política, um cenário absolutamente masculino onde as poucas mulheres presentes atuam, no mais das vezes, de forma idêntica à de seus colegas homens - tanto no Brasil como em outros países.
Apesar de tudo, no entanto, ainda precisamos de uma data como o Dia Internacional da Mulher para reconhecer essa importância. Existe uma certa indignação implícita na data, pois se o dia 08 de março é o Dia Internacional da Mulher, de quem seriam os outros 364 dias do ano?
Eu trabalho com mitologias. Para muitos, os mitos são lendas; histórias inverídicas; para muitas pessoas, acreditar nelas é um atestado de primitivismo, de crendice. Nada mais longe da realidade. Nas palavras do professor Joseph Campbell, a maior autoridade em mitologia de nossos tempos, “nós chamamos de mitologia a religião dos outros povos”.
Então, para um indiano, deusas como Shakti e Kali não são lendas. São deusas! Da mesma forma que para os cristãos Cristo não é um mito: é deus feito homem, ou o filho de deus, ou seja lá qual for a definição que as diferentes correntes cristãs atribuem à figura de Jesus. Mitos, portanto, não são mentiras: mitos contam a história, os costumes e as crenças de povos da Antigüidade e de culturas diferentes da nossa.
Essa é a chave para entender o por quê de as conquistas das mulheres em nossa sociedade serem ainda insuficientes. Isto explica o por quê de estarmos ainda tão longe do sonhado equilíbrio entre os gêneros.
Seja na Antigüidade - por exemplo, entre os celtas da Europa primitiva ou no Antigo Egito - seja nos dias de hoje, nos mitos de culturas ditas “primitivas” (como os Maori da Nova Zelândia) podemos perceber nas mitologias - e mitologias são as religiões desses povos - uma relação de igualdade entre masculino e feminino. Deusas e deuses, heróis e heroínas - em equilíbrio e harmonia. Isso se reflete nas sociedades que seguem essa espiritualidade.
Obviamente, uma cultura que acredite que tudo na Natureza possui uma face masculina e outra feminina - que se complementam - é uma cultura que preza o equilíbrio. Se eu pertenço a um povo que crê que deuses e deusas vivem harmoniosamente, eu reproduzo essa visão no meu dia-a-dia. Eu gero uma sociedade como a dos antigos celtas, como a dos Maori, como a de diversas nações indígenas aqui mesmo, no Amazonas, onde o que impera é a igualdade entre os sexos. Igualdade de direitos e de deveres.
Essa igualdade não existe nos nossos mitos, ou seja, na religião atual. A espiritualidade do ocidente, em visível crise de identidade, está longe de dar à mulher, ao feminino, o papel que ela merece. São já milênios de uma mentalidade voltada exclusivamente ao masculino, à disciplina e à conquista temas tipicamente associados ao macho em detrimento do feminino, da flexibilidade e da partilha.
Os mitos e lendas da Antigüidade apontam para a existência de uma figura feminina identificável em praticamente todas as culturas ancestrais: uma deusa, que os modernos estudos antropológicos e psicológicos chamam de A Grande Deusa. Essa Deusa nada mais é do que a própria Natureza, a Terra Viva, que gera vida, que nutre como mãe, como fêmea, como mulher.
O mito da Natureza como Mulher é forte e antigo. No Egito, Ísis é a grande mãe. Na Suméria, a deusa Inanna é a geradora da vida. Ishtar da Babilônia é a mesma. Entre os índios do Brasil, Guaraci é a Mãe Sol. Na Grécia dos filósofos, berço da cultura ocidental, Gaia é a Terra viva. A agricultura é a dádiva de uma deusa: Deméter. E assim por diante. A Natureza é sempre feminina.
Nosso planeta é vivo, como provam os estudos de James Lovelock, pesquisador inglês que nos anos 70 criou a Hipótese Gaia: “o Planeta Terra é um organismo vivo, auto-regulável e que reage ao que nós humanos fazemos a ele”.
Eis, portanto, o tema principal desta nossa conversa. Por tudo que já dissemos antes, fica claro que o Feminino, a Mulher e a Natureza são na verdade uma única realidade. Não é por acaso que, até mesmo em nosso mundo ocidental, patriarcal tanto do ponto de vista social quanto do espiritual, a Natureza é chamada de Mãe… Afinal, Natureza é uma palavra latina que significa, literalmente, “aquilo que nasce”. A luta da Mulher por espaço e reconhecimento em nossa sociedade anda de mãos dadas com a luta de nosso planeta por um pouco mais de carinho por parte do mundo ocidental.
Que o Dia Internacional da Mulher seja uma data não só para homenagear as pobres operárias que morreram no início do século XX.
Que seja uma data que inspire as conquistas mais recentes, e também as vindouras, de mulheres ao redor do planeta. Mas que seja, acima de tudo, uma data para que reflitamos sobre as origens mais profundas do desequilíbrio social entre homens e mulheres.
Como já vimos, os mitos moldam os destinos de um povo, de uma cultura. Para sabermos por que nossa cultura ser tão desequilibrada no trato da mulher e no trato da Natureza, precisamos rever nossos mitos.
Precisamos rever nossos conceitos de superioridade. A mulher sofre porque durante séculos era uma cidadã de segundo nível. A Natureza sofre porque o ser humano julga-se superior às outras criaturas. Não somos superiores a ninguém. Somos todos parte de uma mesma criatura, a Terra - feminina, que nos gera, nos nutre e nos acolhe a todos humanos, cães, árvores, rios…
Assim como humanos não são superiores às demais criaturas, o homem não é superior à mulher. Chegou a hora de desenvolver uma nova visão, uma nova mitologia, que nos torne capazes de perceber que as diferenças entre homem e mulher, na verdade, permitem que todos cresçamos. Em paz. Em harmonia. Em equilíbrio.
(© 2004, Claudio Quintino - Proibida a reprodução total ou parcial da obra sem a prévia autorização por escrito do autor. Lei Federal 9.610/98.)