Filhos Pródigos, Heróis, Tradições e Traições
(este artigo é um desenvolvimento a partir das ideias originalmente contidas em meu outro texto “Então você quer evoluir?” publicado a 20 de abril de 2009)
Do ponto de vista moral, sempre achei a conhecida passagem mitológica do “Filho Pródigo” um tanto duvidosa. O protagonista se mostra egoísta, ganancioso, irresponsável e inconseqüente, mas depois de todos os seus equívocos retorna para casa; em seu retorno, não só é absolvido pelo pai como é por ele celebrado – a despeito dos protestos do irmão, que ao ficar em companhia do pai, aparentemente não fizera nada de errado.

Pela ótica cristã, o perdão é algo nobre e sempre enfatizado. Mas por outro ponto de vista, igualmente cristão, o desvio da virtude – ou seja, o pecado – é algo a ser evitado e condenado.
(Eis porque sempre atribuí essa enorme contradição à já proverbial ambigüidade dos ensinamentos do cristianismo. Essa ambigüidade, contudo, não deveria ser vista como negativa – pois não somos todos nós ambíguos? Não é a própria natureza ambígua? Não é o próprio Deus cristão - como todos os outros deuses - ambíguo em sua complexidade?)
No fim das contas, a ambigüidade – como a beleza - só existe nos olhos do observador. Só existe ‘certo’ ou ‘errado’, ‘bom’ ou ‘ruim’ quando observamos os fatos a partir de nossos próprios conceitos e preceitos.
Num caminho de cura – tanto dos outros como a de si mesmo -, despir-se desses conceitos e preceitos é fundamental para que haja justiça e justeza nos atos e sentimentos. Mas graças ao ilusório conforto que ater-se a esses preceitos nos traz (é sempre mais fácil agir e pensar de acordo com o ‘senso comum’), poucos são os que se dispõem a quebrá-los – e dentre estes, menos ainda são os que o conseguem de fato.
A libertação pessoal desses preceitos e conceitos é um processo brutal de ruptura – uma verdadeira ‘iniciação’, no sentido mais profundo da palavra, em que deixamos para trás aquilo que não nos serve para receber o novo, o transformador. Implica em deixar de lado o que “os outros” pensam e acham e sentem para, enfim, pensar e achar e sentir por si mesmo – renascidos para o mundo e para si mesmos. A serpente que, para crescer, abandona a pele; a ave que, para nascer, rompe a casca do ovo. Crescer, nascer: mudar, transformar.

Como dito, é uma ruptura brutal. Brutal. Mas é uma ruptura que não é destruidora, porque ela traz o potencial da verdadeira e profunda transformação.
RITO DE PASSAGEM
Nossa percepção da vida, quando entra nos trilhos da ‘normalidade’ e do ‘senso comum’, fica embotada e turva pela ‘familiaridade’ que implantamos ao tempo. A familiaridade é tão poderosa que nos vicia sem que sequer percebamos – de corpo, mente e alma, passamos a procurar aquilo que conhecemos, que é confortável, que é familiar. Atemo-nos ao corriqueiro. Instala-se a rotina.
Dessa forma, quando a novidade surge em nossas vidas, imediatamente desconfiamos dela – ao mesmo tempo em que somos por ela atraídos.
Aquilo que é “novidade” traz uma percepção diversa do tempo cronológico. Diante daquilo que é novo, tudo é diferente - e é tão grande a excitação e o encantamento que a novidade gera que temos a impressão de que o tempo passa de outra forma – e de fato, é isso o que o corre: o tempo passa de forma diferente porque se torna sagrado.
A percepção do Tempo Sagrado é a chave que torna toda a Vida Sagrada.

Não por acaso, em todas as tradições espirituais e culturais ao redor do planeta, e até mesmo em nossa sociedade pretensamente ‘laica’, a passagem do tempo em nossas vidas é marcada por situações como formaturas, menarca, casamento, serviço militar, menopausa, paternidade, aposentadoria, etc - eventos que são como esboços dos ritos de passagem que assinalam mudanças em nossas vidas - na maioria das vezes, infelizmente, desprovidas do caráter sagrado.
Sem a sacralidade dos ritos de passagem, nossas almas não percebem as mudanças com a intensidade devida.
Sem sacralidade, o tempo simplesmente passa. Nossas vidas passam. Tudo passa. Nada nos toca como deveria, nada nos satisfaz.
A consequência é que, sem sacralidade, as ‘novidades’ em nossas vidas não nos tocam a alma - e o milagre do tempo deixa de ser milagre: se esgarça, torna-se profano, sem significado. Perde o senso de Sagrado.
Sem sacralidade, tornamo-nos refratários às transformações que fazem parte de nossas vidas - e da Vida como um todo.
Isso exige a renovação da sacralidade - algo que ocorre através do Rito de Passagem.
SOLVE ET COAGULA
Um dos mais poderosos ritos de passagem, encontrado em diversas religiões, é o retiro. Retirar-se do mundo é abrir o portal para a redescoberta – e a reinvenção – de si mesmo.
Somente quando ficamos livres do ‘familiar’, somente na solidão, é que a alma se põe vulnerável a ponto de destruir-se - claro, sempre com o intuito de reconstruir-se. Entra em ação o princípio alquímico do “Solve et Coagula“, dissolver e coagular, desfazer para recriar.

A água do batismo, os banhos rituais, a sauna xamânica - todas essas práticas nos põem em contato com o “solvente universal”: a Água, símbolo da fluidez e da ciclicidade de nossas emoções. Ao dissolvermo-nos na Água, abrimos caminho para a criação de uma nova existência, de uma nova percepção e, como resultado, de uma nova relação com o que nos era familiar.

Quando nos dispomos à “dissolução” pela Água, acessamos o espaço individual que tanto – e tão voluntariamente – negamos a nós mesmos, em nome da ‘Tradição’, da convenção. A ideia da dissolução daquilo que somos - ou cremos ser - é desafiadora demais para ser aceite com leveza. Mas acima de tudo, negamos esse espaço individual - nosso eremitério, o casulo transformador - por nossa ignorância acerca da força, necessidade e importância desse processo individual.
Só após o “solve” é que o “coagula” pode agir - só quando dissolvemos nossas crenças e conceitos é que podemos nos reconstruir, curar:
“I had to send her away to bring her back again” (Jeff Buckley, Morning Theft)
Na mágica peça teatral chamada “A Alma Imoral”, adaptada pela atriz Clarice Niskier a partir da obra homônima do Rabino Nilton Bonder, um tema avassalador em sua argumentação e importância é o do conflito Tradição X Traição. Poucos de nós parecem se dar conta de que há mais do que um radical lingüístico comum a unir essas duas palavras, esses dois conceitos.

A começar pelo fato de que a Tradição é, aos olhos do mundo, rica e bela. É o legado, a herança, a identidade - que se mantém geração após geração.
A Traição, por sua vez, é a ruptura, a quebra, o mergulho no desconhecido.
(Antes mesmo de assistir à peça e sem nunca ter lido – assumo – a obra do rabino Bonder, eu havia escrito um texto em que cito Milan Kundera, Joseph Campbell e outros que falam da traição, entitulado “Então você quer evoluir?”.)
Ora, se a Traição é quebra, então ela é e deve sempre ser indesejável – nas palavras do próprio Kundera, “a felicidade é o desejo da repetição”. Mas há aqui uma semente de contradição – poderosa como aquelas mencionadas no início deste texto - porque a Traição é a quebra que interrompe a Tradição. E a Tradição é o conforto do familiar.
Mas pelo quanto visto acima, não é a familiaridade a própria porta que se abre para que o Profano invada a Vida e lhe tire a Sacralidade?
Se assim for, então a Tradição não é assim tão boa e positiva - nem a Traição é assim tão má e negativa…
A Traição em questão pode ser a do casal, entre sócios ou entre amigos - mas também é Traição qualquer ruptura com o “status quo vigente”.
Ao deixar para trás a Tradição, o Traidor fica só. Quase sempre, marginalizado.
Na maior parte do tempo, isso desespera. Mas nalguns breves momentos, essa solidão pode servir como retiro - o Eremitério. Ou seja, também como visto acima, como porta para o conhecimento de si mesmo. E pelo conhecimento de si mesmo, a Cura. E pela cura de si mesmo, a possível cura da comunidade – os que coabitam o Círculo Sagrado da ‘Pertencência’ (neologismo que adotarei doravante).

Traidor é quem quebra a Tradição
Sufocado pelo desejo de expansão e pelo fascínio do novo, o Traidor é aquele que rompe os limites daquilo que é familiar, é aquele que abandona – quase nunca alegremente – a aldeia, o Círculo Sagrado da Pertencência.
Logo ele se vê obrigado a encarar – quase sempre sozinho – o sinuoso e perigoso Caminho que cada vez mais o afasta do conforto e da familiaridade do Círculo.

As principais armadilhas, os mais perigosos vilões no Caminho de quem abandona o Círculo e a Tradição assumem a forma de sensações: a sensação de abandono, a de impotência, a de desesperança.
De modo geral, é só depois de deparar-se com essas sensações, enfrentando-as com a força da desesperança, que o Traidor – a partir de agora chamado de Herói – pode ansiar pela Cura. É do desespero do desapego e da desapropriação que vem a coragem de ousar.

E a coragem de ousar brota da rebeldia e da marginalidade de ser aquele que rompe as leis - aquele que quebra a Tradição. O que trai o mundo.
Como no texto do Rabino Bonder o filho que sai de casa atrás de seu destino “trai” - à primeira vista - os carinhos, cuidados, esforços e planos de seus pais, da mesma forma quem rompe a Tradição renova sua energia, renasce, novamente adolescente, novamente um jovem que “foge de casa” em busca de sua própria aventura.
“O BOM FILHO À CASA TORNA”…
O tal “Filho Pródigo” sempre me intrigou: como premiar o que, aos olhos de todos, errou ao trair o pai, em detrimento do filho que obedientemente ficou? Parece um desserviço, parece o prêmio ao erro. Mas “erro” ou “acerto”, como sabemos, é atribuição de valores…
O filho que abandona a casa é o Herói, que parte em sua jornada solitária rumo ao novo, ao desconhecido, ao não-familiar, ao perigoso, ao desafiador.
Tendo sido capaz de encarar esses desafios, é aquele que, com a alma purificada, atinge a percepção do que é real e se torna capaz de encontrar o Graal.

Nas palavras de Joseph Campbell, é o Herói que encontra o ‘Elixir da Cura‘ e retorna à aldeia - o Círculo, a familiaridade - com o dom da transformação.
Quem opta por ficar no Círculo da Pertencência não corre perigo – e, portanto, não renasce. Acaba por cair escravo do tempo profano, não vive sua história sagrada – opta por não ser Herói.
Tudo isso é muito belo em palavras escritas, mas extremamente doloroso de se sentir na pele - e muito mais doloroso de se sentir na alma. Não é por acaso que em toda “Jornada do Herói” o protagonista tem um momento de hesitação, de relutância. Segundo Campbell, o estágio do ‘Herói Relutante’ ocorre quando, diante da tarefa assustadora que se lhe descortina, o futuro Herói se sente pequeno, incapaz de encarar o desafio.
Nada mais saudável e natural: se não houvesse a relutância, ele seria louco, insano mesmo - e não herói.

Pois a relutância do herói é sua consciência de que algo grande está por morrer - e toda morte traz dor. O medo da dor é, muitas vezes, o medo do julgamento – “o que vão pensar de mim, o que os outros vão dizer?”
Novamente, surge aqui a importância da solidão, do retiro: longe dos outros, seus pensamentos e palavras não causam mais medo. Perdem a força. Ganha-se a resistência e o sagrado Senso de Propósito que, mais que espadas ou escudos, é a verdadeira e principal “arma” do Herói.
Sem medo de parecer fraco, encara-se a dor. E encarando a dor, pode-se viver a Transformação.
“A sabedoria não vem durante, mas depois da dor”. (Kelma Mazziero)
A rebeldia do Herói – aquele que ousa sair do Círculo da Pertencência e rompe com a Tradição – o transforma, aos olhos do mundo, em um Traidor. Mesmo que após o processo ele ganhe status de Herói, durante o processo ele é meramente um traidor. E assim como “a sabedoria não vem durante, mas depois da dor”, o reconhecimento do gênio e do herói não vem durante a descoberta e a transformação, só depois de findo o processo – isso quando vem…
A grande comunidade não nutre especial admiração pelos rebeldes e ousados. A Geni da canção de Chico Buarque costumava ser execrada, é santificada quando salva a comunidade do tirano do Zepelim e volta a ser execrada quando finda a aventura. Ela ousou ser diferente, morreu e renasceu, e mesmo assim ninguém a entendeu – preferiram voltar ao confortável e medíocre “julgamento”, que tem por base os valores da Tradição, os princípios familiares a todos, caem na vala comum do “senso comum”.
Não são, então, heróis - são anti-heróis.

TRAIR A TRAIÇÃO
Mas a rebeldia do Herói/Traidor tem mais de um uso: se ela transforma o ousado em Herói, impulsionando-o ao caminho, mais heróico ainda esse Herói se torna quando, após ter desempenhado sua aventura transformadora e crescendo como indivíduo renovado pela ressacralizacão épica de sua vida, ele opta por abandonar a estrada do desafio – a própria “mãe”, por assim dizer, do Herói, já que foi a aventura na estrada que fez dele o que ele agora é.
- Sair do Círculo da Familiaridade é trair a Tradição;
- Retornar a ele após a Jornada é trair a Traição.
Ao abandonar a estrada - a linha reta - ele só tem um destino: o círculo novamente. O mesmo círculo que, nalgum momento no passado, mostrou-se estreito demais para que nele o herói permanecesse.
Retornar à “pequenez” do círculo por vezes exige mais coragem do que a coragem inicial de deixá-lo. Porque transformado, o herói jamais verá o círculo com os mesmos olhos – e a derradeira armadilha é justamente querer retornar para as coisas familiares como eram antes: pois isso é impossível.

E é impossível porque, após a solidão, o exílio e a Traição da Tradição, o protagonista tem uma percepção toda nova do que é o Círculo, de quem mora nele, que papéis são nele desempenhados e qual o seu próprio novo papel nesse local.
Se ele tiver sabedoria, poderá usar sua recém adquirida força – o ‘Elixir’ de Campbell - para melhorar ainda mais o Círculo. Sua nova visão, sua perspectiva transformada fará com que ele veja beleza onde antes nada havia, sinta a sacralidade no que antes parecia profano, identifique problemas com antecipação e, melhor ainda, com propostas de Cura.
Então a traição inicial – abandonar a aldeia, a casa, o círculo – é redimida por uma Nova Traição – abandonar a estrada, a aventura, a linha reta.
ESPAÇO PARA A TRAIÇÃO

“Um contrato entre dois indivíduos”, disse o rabino Bonder, “é uma coisa muito perigosa.”
De fato: contratos são acordos – profissionais, matrimoniais, governamentais. Se os indivíduos mudam tanto quanto descrevemos acima – pois se não mudam, deveriam mudar – então um contrato só é justo quando também ele se mostra flexível o bastante para acomodar, com respeito e honra, as tantas transformações por que passam seus celebrantes.
Acordos e contratos não deveriam ser vistos como “leis” rígidas, com cláusulas tão imutáveis quanto a Tradição; para o Rabino Bonder, esses acordos entre almas devem ser flexíveis e leves para permitir a quebra da Tradição - pelo bem das partes.
Nem toda quebra de contrato, nem toda ruptura é positiva - mas muitas podem ser: quando delas vem crescimento e Cura…
Quando depois de trilhar o Caminho, o Herói retorna ao Círculo…
Quando o Filho Pródigo retorna.
Faz sentido agora.